Motociclitas e o pagamento do SUS
80% dos estudantes do Ensino Fundamental estão matriculados em escolas públicas; 75% dos brasileiros dependem exclusivamente da assistência médica prestada pelo SUS
É compreensível que profissionais ligados a aplicativos rejeitem o Estado, suas regulamentações, limitações e taxas; o problema é que esse progressivo abandono gera um paradoxo, compromete aposentadorias e o atendimento médico a vítimas de acidentes de trânsito, como motociclistas.
Segundo a Secretaria de Saúde do Rio, casos que envolvem motocicletas são responsáveis por 68% dos atendimentos relacionados ao trânsito em hospitais municipais. Os acidentes com esse tipo de veículo geram 40% dos pacientes de cirurgias ortopédicas.
Apesar de seus problemas, as redes oficiais de educação e saúde atendem à grande maioria da população: 80% dos estudantes do Ensino Fundamental estão matriculados em escolas públicas; 75% dos brasileiros dependem exclusivamente da assistência médica prestada pelo SUS. A Previdência Social garante a renda de milhões de brasileiros.
Todos temos o direito de buscar uma vida melhor, e, ao longo dos séculos, a realidade brasileira tem tratado de desmentir aquela história da mãe gentil — ela está mais para uma senhora egoísta, racista, excludente e com indisfarçável preferência por um pequeno grupo de filhos.
Por mais que tenha havido avanços nas últimas décadas, o país continua a colocar muitas barreiras no caminho dos mais pobres que buscam uma ascensão; a resistência à implantação de uma escala mais humana de trabalho demonstra isso.
Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o cientista político Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest, fala da decepção de muitos jovens pobres com as perspectivas oferecidas pelo mercado formal de trabalho e da esperança que depositam no que classificam de empreendedorismo, mesmo que assentado sobre duas precárias e perigosas rodas.
São filhos das classes D e E que, segundo ele, veem na regulação do trabalho nas plataformas uma ameaça, não uma proteção. São pessoas que querem mais do que a redução de jornada de trabalho, não querem passar a vida atrás de um balcão.
Como frisa Nunes, o PT ainda não encontrou um jeito de falar com esses trabalhadores, continua preso à lógica da CLT, um avanço que, para muita gente, virou sinônimo de limitação e de conformismo.
Não é um diálogo simples, não se pode negar o direito de cada um cuidar do próprio nariz com base em suas experiências de vida e nas histórias familiares. Mesmo que, para isso, o sujeito tenha que arriscar sua vida, pagar moto e combustível e ralar ao longo de horas intermináveis.
Os muitos exemplos de pilantragem explícita vindos de uma elite voraz, insensível e insaciável não ajudam. A privatização de recursos do Estado pelos de sempre e a riqueza ostentada por muitos privilegiados estimulam busca de saídas menos ortodoxas para o trabalho — algo na linha do "Se eles podem, por que eu não?".
O grande desafio, não do PT, mas de qualquer setor minimamente responsável, é o de estimular conversas mais honestas, que indiquem alternativas que combinem expectativas e realidades e, principalmente, não estimulem o desmonte de uma estrutura estatal que precisa ser melhorada, e não destruída. Até porque a aniquilação do Estado é projeto principalmente daqueles que sugam seus recursos e dispensam seus serviços.