Direita teme dinastia Bolsonaro

A questão é simples: a eventual eleição do primogênito do ex-presidente daria à sua família um protagonismo absoluto na direita.

Por Fernando Molica

Bolsonaro & Filhos, uma grande família

As farpas e cotoveladas que volta e meia são trocadas por representantes da direita revelam uma disputa que vai além da disputa eleitoral deste ano. O que está em jogo é uma tentativa de impedir uma interminável dinastia dos Bolsonaro.

A troca de afagos, ontem, entre o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ameniza, mas não elimina a disputa que vem sendo travada até publicamente entre lideranças conservadoras.

A questão é simples: a eventual eleição do primogênito do ex-presidente daria à sua família mais quatro anos — quiçá oito, em caso de reeleição —, um protagonismo absoluto na direita. Na fila por palcos nacionais  ainda estão Michelle e outros três de seus enteados. Isso sem falar no próprio Bolsonaro, que seria anistiado em caso de vitória do filho e poderia retomar a atividade política (sua saúde, pelo visto, melhorou muito em casa).

O revezamento entre integrantes do clã manteria no banco de reservas políticos como Tarcísio, o ex-governandor mineiro Romeu Zema (Novo) e os governadores Eduardo Leite (PSD), do Rio Grande do Sul, e Ratinho Júnior (PSD), do Paraná. Liderança mais jovem, Nikolas Ferreira (PL-MG), acusado de não se empenhar na campanha de Flávio, protagonizou disputas públicas com dois outros filhos de Bolsonaro, Eduardo e Jair Renan — este foi comparado pelo deputado a uma "toupeira cega".

A sagração de Flávio como candidato à Presidência ressaltou o que todos sabiam: Jair só confia nos seus, não gosta de dividir poder e morre de medo de traições. Como mostrou o colega de página Tales Faria, isto complica até mesmo a escolha do candidato a vice do filhão — há o temor de que a senadora Tereza Cristina (PP-MS), nome que seria mais óbvio, seja, no futuro, o que Michel Temer foi para Dilma Rousseff. Ao escolher o general Braga Netto para vice em 2022, Bolsonaro não quis agregar votos, apenas garantir que não tomaria uma rasteira do companheiro de chapa nem do Exército.

O carinho que rolou ontem entre Flávio e Tarcísio não apaga os elogios que este, há uma semana, endereçou a Zema — até agora, adversário do pré-candidato do PL — e as críticas que fez à polarização. 

Durante seu mandato, Bolsonaro não vacilou em defenestrar qualquer aliado que, na sua avaliação, estivesse a caminho de, para usar a expressão de Leonel  Brizola, costear o alambrado. Seu vice, Hamilton Mourão, foi tratado com desprezo e só não foi pra rua porque tinha sido eleito ao lado do titular.

Ao longo de sua carreira, Bolsonaro demonstrou sua impaciência com o exercício da política; na Câmara, liderava uma espécie de bloco do Eu Sozinho. Na Presidência, entregou o poder ao Centrão apenas para não ser alvo de tentativa de impeachment e para poder ficar mais tempo no cercadinho do Alvorada. Mas deixava claro que ele era o dono do pedaço.

A direita sabe que seria suicídio eleitoral brigar com Bolsonaro, mas não está disposta a bater continência o resto da vida para o ex-capitão. Constatou que conservadorismo ganhou estatura, não depende apenas de um líder.

Além disso, Tarcísio e colegas que estão na fila não querem saber da profecia de Flávio que, ontem, disse que, "um dia", o governador de São Paulo chegará à Presidência — isso, se Deus quiser, completou.