Lula: 'Obrigado, Donald'

A retirada de acesso de um policial dos Estados Unidos a dependências e sistemas da Polícia Federal indica que o Palácio do Planalto decidiu manter o discurso feito, no ano passado, quando da edição do tarifaço pela Casa Branca.

Por Fernando Molica

Os presidentes Donald Trump e Lula

Por mais que critique decisões tomadas por Donald Trump, o presidente Lula (PT) não tem do que reclamar dele. O colega norte-americano, com gestos direcionados ao Brasil, tem permitido ao petista recuperar a bandeira do nacionalismo que havia sido tomada por Jair Bolsonaro e seus seguidores.

A retirada de acesso de um policial dos Estados Unidos a dependências e sistemas da Polícia Federal mostra que o Palácio do Planalto decidiu manter o discurso feito, no ano passado, quando da edição do tarifaço pela Casa Branca.

Desta vez, a medida atendeu ao princípio da reciprocidade e está relacionada à solicitação para que um delegado da PF deixasse os EUA: ele teria atuado de maneira indevida no processo de detenção do ex-deputado Alexandre Ramagem.

Ao anunciar que poderia partir para a retaliação, Lula procurou ressaltar suas diferenças em relação ao bolsonarismo, que tanto louva os EUA e, particularmente, Trump — o país e o governante identificados pela extrema direita brasileira como defensores da liberdade.

O petista tenta mostrar que os elogios aos EUA não passam de atitude antipatriótica, de subserviência, de submissão do Brasil aos interesses da mais poderosa das nações. A estratégia deu certo no ano passado quando o Planalto protestou contra as tarifas impostas pela Casa Branca e ainda conseguiu um encontro amistoso com Trump.

Agora, a situação é um pouco mais delicada. Num primeiro momento, a PF atribuiu a detenção de Ramagem a uma coooperação com autoridades policiais dos EUA. Pelo visto, não foi bem assim; a versão de que ele foi em cana por causa de um acidente ou incidente de trânsito parece mais razoável.

A decisão norte-americana de apontar o caminho de casa para o delegado que representava a PF no Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos  — o ICE, que inferniza a vida de imigrantes — deu a Lula a chance de voltar a falar grosso, e de ameaçar retribuir o cartão vermelho.

O presidente, porém, foi cauteloso: não disse que tomaria a medida, isso dependenderia das condições da punição ao brasileiro, da eventualidade de abuso de poder. Garantiu o discurso, mas manteve o pé atrás.

Ao anunciar a retirada das credenciais do policial norte-americano, e o consequentemente impedimento do trabalho que ele realizava no Brasil, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, confirmou o que Lula prometera. E garantiu ao presidente o discurso de que defende a honra brasileira, o verde-amarelo, a pátria nossa, mãe gentil.

Lula ainda reafirmou uma lógica tão presente numa sociedade machista, a de que tomou uma atitude "de homem", atributo que também havia sido apropriado pelo bolsonarismo com seus permanentes cultos à polícia e aos militares.

A nova fala do presidente foi também uma espécie de habeas corpus preventivo em relação à possibilidade de o governo dos EUA tentar, de alguma forma, atuar na eleição brasileira para ajudar Flávio Bolsonaro. Ao insistir no tema, Lula prepara caminho para um discurso de intervenção na soberania do país.

Apesar de tudo, Trump tem quebrado o galho de Lula ao lhe dar tantos motes para enfrentar o bolsonarismo. Num eventual novo encontro dos dois, o brasileiro bem que poderia mandar um "Thank you, Donald...".