Oscar, o craque trabalhador
De nada valeria seu talento natural para o esporte se não houvesse tanto esforço, tanto trabalho, tanta dedicação - ele precisava dominar e condicionar seu corpo como um atleta de ginástica artística.
Eu devia ter uns 12 anos de idade e muito otimismo — achar que, adulto, superaria a casa do 1,70 m — quando decidi começar a aprender a jogar basquete na Universidade Gama Filho, dona do Colégio Piedade, onde estudava.
O verbo "aprender" não é absurdo. Até pela predominância do futebol entre nós e pela facilidade de praticá-lo por aí, suas técnicas básicas nos são ditadas na primeira infância. Quase nascem conosco — ou, como no meu caso, não nascem (devem ter sido perdidas na cesariana praticada na madrugada de um domingo de Carnaval, num hospital público de Quintino onde faltava luz).
Abandonado no berço pelo futebol, concluí que valia a pena praticar o esporte da seleção brasileira de Carioquinha (dele veio minha preferência pela camisa 7), Ubiratan e Hélio Rubens. Timaço. Anos depois, veria Oscar e Marcel em quadra.
Foi no ginásio da UGF que entendi a história do aprender. O basquete é um jogo de muita precisão, passa pelo controle da bola, pelos bloqueios corporais ao adversário, pela armação de jogadas e, obviamente, pelo arremesso à cesta. Tudo isso precisa ser ensinado e muito treinado.
O jeito de quicar a bola, com as mãos em concha, a maneira de passá-la por entre as próprias pernas ou de jogá-la às costas e, com a mesma mão, devolvê-la para frente, a busca do equilíbrio e da precisão no salto para o chute: os braços sobre a cabeça, a concepção mental da trajetória, da parábola a ser feita na direção do alvo, a virada de pulso após o arremesso.
Tudo isso é para ressaltar a frase em que Oscar Schmidt dizia não ter mão santa, mas mão treinada. Depois de cada treino, ele continuava em quadra lançando, pelo menos, 500 bolas na direção da cesta. Pouco valeria seu talento se não houvesse tanto esforço, tanto trabalho, tanta dedicação; ele precisava dominar e condicionar seu corpo como um bailarino ou um atleta de ginástica artística.
No futebol, alguns craques também demonstraram o valor do treinamento duro. A excelência de Zico na cobrança de faltas vinha de seu hábito de treinar mesmo depois que os colegas iam para casa. Ficavam ele, a bola e a barreira móvel — e, possivelmente, bem na forquilha, a pobre de uma coruja que era impedida de dormir.
Oscar, que morreu na sexta passada, era da linhagem dos craques-trabalhadores: aprendeu, mudou a forma de praticar o basquete e nos ensinou a valorizar ainda mais a dedicação, a força, a disposição, o empenho. Foi rigoroso, detalhista, exigente.
(Ah, cheguei a jogar duas temporadas no infantil do Vasco. Apesar do nosso esforço, o time era fraco, colecionamos muitas derrotas. Mas foi divertido.)