O banco imobiliário do ex-presidente do BRB

Os papéis apresentados pelo então banqueiro Daniel Vorcaro valiam tanto quanto as fichinhas usadas em jogos de tabuleiro

Por Fernando Molica

Paulo Henrique Costa foi preso pela Polícia Federal

As negociatas apuradas pela Polícia Federal indicam que o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Bezerra Rodrigues Costa chegou a concretizar a fantasia do Banco Imobiliário, aquele velho jogo de tabuleiro popular há tantas gerações.

A diferença é que os participantes da brincadeira fingem comprar e vender uma série de bens; o ex-executivo tentou rifar o banco que pertence ao Distrito Federal em troca de receber, como pagamento, um imenso patrimônio imobiliário.

Segundo as investigações, o valor total dos imóveis chegaria a R$ 146 milhões. Ele já teria amealhado o equivalente a R$ 74 milhões em casas e apartamentos luxuosos.

Para merecer essa bolada, Costa, segundo a PF, fazia um jogo bem pesado. Tudo com o objetivo de viabilizar a compra do Master pelo BRB. Fingia que era boa a carteira de títulos apresentada pelo Banco Master na negociação. Só que aqueles papéis entregues pelo então banqueiro Daniel Vorcaro valiam tanto quanto as fichinhas usadas em jogos como o do Banco Imobiliário.

Mensagens apreendidas pela PF apontam que Costa virou uma espécie de viciado no jogo sujo capitaneado por Daniel Vorcaro, ao que tudo indica, o dono de uma das maiores bancas de corrupção do país.

Comprava autoridades de diferentes poderes com a facilidade de quem tira um jogo da caixa e desdobra o tabuleiro sobre a mesa. Diferentemente dos crupiês de cassinos, o então presidente do BRB sequer precisava gritar algo como "Façam o jogo, senhores".

Bastava ter conversas de pé de ouvido com os responsáveis pela administração dos recursos do Distrito Federal. Cumpria o combinado com Vorcaro, um sujeito acostumado a jogar com dados viciados, que sempre caiam com as seis bolinhas viradas para cima.

Esquemas de corrupção, infelizmente, não são novidade entre nós. Mas esse caso que envolve o Master e o BRB supreende pela ousadia de se tentar fingir que era verdadeiro um patrimônio construído no mundo da fantasia.

É como Vorcaro tentasse, com o aval do presidente do BRB, vender o Castelo da Cinderela como se fosse um daqueles espalhados pelo Vale do Loire, na França.

Ao longo de sua carreira, inicialmente chancelada pelo Banco Central, então presidido por Roberto Campos Neto, Vorcaro avançou muitas casas. E é impressionante que ele tenta conseguido progredir tanto em um universo que, em tese, é muito controlado — a confiabilidade do sistema bancário é essencial para a sociedade como um todo.

Vorcaro continuou fazendo seu jogo e exibindo uma gastança de maneira indecente, um comportamento inusitado para o setor e que, por si só, deveria ter servido de alerta para os responsáveis pela fiscalização.

O ex-banqueiro amealhou tanta fortuna graças a uma sucessão de jogadas irregulares. Com a cumplicidade de corretoras, distorceu a finalidade do Fundo Garantidor de Créditos e graças a parcerias com agentes públicos, fez com que estados e municípios comprassem seus papéis de mentirinha. Investidores privados de peso não caíram no conto do Vorcaro e trataram de manter seus recursos longe do Master.

Vorcaro já estava preso, agora foi a vez de Costa e do advogado Daniel Monteiro, que seria operador do esquema de propinas imobiliárias. Falta prender muita gente, para ficarmos no campo dos jogos, gerar uma espécie de efeito dominó.

Se estivesse diante de um tabuleiro, o ex-presidente do BRB estaria naquela situação em que o jogador é obrigado a voltar muitas casas — foram tantas que ele acabou na cadeia.