Os milagres de São Davi

Presidente do Congresso fez concessões ao governo e à oposição e ainda despachou a CPMI do Master

Por Fernando Molica

Alcolumbre soprou, marcou a sabatina de Messias, agendou a sessão para análise do veto de Lula e segurou a CPMI

Políticos às vezes operam milagres, como o de desencalhar a agora mais do que provável ida de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal e o de pautar a até então encalhada sessão do Congresso para a análise do veto do presidente Lula (PT) ao projeto que diminui penas de condenados por golpismo.

O santo que atendeu às preces do governo e da oposição é o presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP). Ao tornar viável o que parecia impossível, ele conseguiu também a graça de atender a um desejo seu e de muita gente poderosa: mandou para o quinto dos infernos a CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investigaria o Banco Master.

Alcolumbre, em condições para ele normais de alta temperatura e muita pressão, não teria maiores problemas em convocar uma sessão para a análise do veto presidencial.

Seu problema era o regimento do Congresso que prevê a instalação imediata de CPMIs que tenham obtido o número regimental de assinaturas, caso da que prevê a investigação do Master. Essa criação automática dependeria apenas de realização de sessão conjunta da Câmara e do Senado. 

Bem ao seu estilo, Alcolumbre, que, bom velejador, sabe esperar os melhores ventos, fez o tempo correr a seu favor e, tratou de tocar a bola pro lado. Para evitar o assédio de colegas, tratou de convocar sessões semipresenciais no Senado. Enquanto isso, cozinhou o governo e a oposição, desgastou Messias e o próprio projeto da chamada dosimetria de penas.

Deixou também que o caso Master saísse das manchetes: sabia que o entusiasmo de parte do PL pela CPMI acabaria diminuindo na medida em que políticos do partido e de aliados começassem a aparecer como suspeitos de envolvimento com o escândalo. Pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro assinou, mas não tragou a comissão.

A bomba Daniel Vorcaro está hoje, principalmente no colo do procurador-geral da República, Paulo Gonet, a quem caberá cuidar da delação premiada de Daniel Vorcaro e de suas explosivas consequências.

Dependente da vontade de Alcolumbre, o governo também demonstra ter aceitado a negociação. O Planalto, que nunca demonstrou querer a CPMI — muitos petistas não assinaram o requerimento para criá-la —, sabe que precisaria do OK do presidente do Senado para para fazer com que Messias troque a Advocacia-Geral da União pelo STF.

E sabe também que, mais dia, menos dia, o veto teria que ser votado: é bem provável que, ainda no primeiro semestre, precise de uma sessão do Congresso para adaptar o orçamento de 2026.

Nada impede que, em uma futura sessão conjunta, a CPMI seja, como prevê o regimento, instalada de forma automática. Mas isso é diferente de fazer com que seus trabalhos sejam iniciados. Os partidos precisam indicar seus representantes — e já estamos na segunda quinzena de abril, maio é logo ali.

Depois tem festa junina, Copa do Mundo e eleição. Como em todo ano eleitoral, o Congresso terá no segundo semestre uma existência quase que burocrática.

Governistas e oposicionistas mais radicais vão reclamar do acordo costurado por Alcolumbre, mas as lideranças partidiárias sabem que não tinham outra saída. Necessitadas de milagres, ajoelharam e agora têm que rezar pela oração de Alcolumbre.