A irônica prisão de Ramagem

Lá é assim, não adianta brasileiro mandar uma carteirada, um sabe com quem está falando. Os caras do ICE não sabem, não querem saber, e têm raiva de quem sabe.

Por Fernando Molica

Bolsonaro dobra a aposta com Ramagem

A prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem não deixa de ser uma ironia histórica. Segundo as primeiras informações, o ex-delegado da Polícia Federal, foragido da Justiça brasileira, foi detido justamente no país que bolsonaristas como ele costumam classificar de terra da liberdade.

Assim como outros tantos imigrantes — em sua grande maioria, latinos como Ramagem —, o ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) foi preso por agentes do ICE, o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas, que, estimulado por Donald Trump, inferniza a vida de ilegais: pelo visto, é esta a situação do ex-parlamentar.

As condições da detenção de Ramagem ainda não estão muito claras. Em nota, a Polícia Federal brasileira falou em cooperação policial internacional com autoridades norte-americanas. O bolsonarista e autoexilado Paulo Figueiredo falou que o aliado se envolvera em um pequeno acidente de trânsito; os policiais chegaram, pediram documentos — e o amigo, ex-tanta coisa, foi tratado como mais um latino suspeito de estar ilegalmente no país de Trump.

Lá é assim, não adianta brasileiro mandar uma carteirada, um sabe com quem está falando. Os caras do ICE não sabem, não querem saber, e têm raiva de quem sabe. A ironia vai tornar ainda mais patético o "ICE de Floripa", tropa de voluntários criada pela prefeitura de Florianópolis (SC) para espantar os que não se enquadram em determinados padrões.

O episódio chega a lembrar uma cena de "Bacurau", filme de Kleber Mendonça Filho que trata da chegada no Brasil de um grupo de estrangeiros que fora para o Nordeste do Brasil praticar seu esporte favorito: caçar e matar humanos.

Fascinados pelos gringos, um grupo de brasileiros resolve ajudá-los. Uma das integrantes da patota diz então que ela e os amigos tinham vindo do sul do nosso país, uma região diferente, onde havia maioria de brancos. Um dos estrangeiros ri, ironiza a aliada que, subserviente, tanto procurava lhe agradar. Diz algo na linha do "Quem disse que você é branca?". 

Pois é. Por mais clara que seja a pele de muitos de nós, aos olhos norte-americanos todos somos latinos, somos os outros, os não convidados para a grande festa do primeiro mundo.

Trump tem muito defeitos, não se cansa de demonstrar seus compromissos com a arrogância e com a violência, mas, pelo menos, não faz discurso de bonzinho. Não aplica taxas ou invade países para dizer que vai implantar a democracia ou levar progresso para outros povos.

Deixa claro que quer apenas defender interesses dos Estados Unidos. Ou, pelo menos, do que ele julga ser o melhor para o seu país.

A essa altura, lideranças bolsonaristas já devem ter se mobilizado para ver se salvam a pele do ex-deputado, que, com medo de ir para a cadeia, meteu um atestado médico na Câmara e armou um plano de fuga cheio de artimanhas. Só não contava com a astúcia dos caras do ICE.

Mais uma vez, a Dona História, essa velhinha meio malvada e muito irônica, faz das suas. Ramagem não foi preso em um país governado pela esquerda, caiu na teia montada pela extrema direita para se livrar de indesejáveis — ele acaba de descobrir que é um deles.