As festas de arromba-república

Vorcaro sabia como e quando gastar seus aparentemente infindáveis recursos. Distribuia os vales-nigth de acordo com os desejos e ambições de cada um, organizava tudo direitinho para que todo mundo fosse saciado.

Por Fernando Molica

Festa de noivado de Daniel Vorcaro e Martha Graeff na Itália

Daniel Vorcaro era um grande promotor de festas: fazia a alegria de moças importadas de outros estados e países, de políticos de diferentes tendências, de ministros de tribunais superiores, de sites jornalísticos, de advogados com relações de parentesco com o poder. 

Era uma espécie de promoter de eventos bancados por todos nós, barrados nos grandiosos bailes, terrestres e aéreos, promovidos pelo então dono do Banco Master. Um sujeito que sabia como e quando gastar seus aparentemente infindáveis recursos. Distribuia os vales-night de acordo com os desejos e ambições de cada um, organizava tudo direitinho para que todo mundo fosse saciado. 

Cada caso é um caso, caberá à polícia e ao Ministério Público apurarem - de forma ampla, geral e irrestrita - eventuais desvios, segundas intenções e excessos em pagamentos milionários efetuados pelo Master. Seria irresponsável e injusto atribuir culpas antecipadas, mas o conjunto de evidências impressiona. Vale, por exemplo, verificar se advogados que ralavam no dia a dia do banco - e trabalho nunca lhes faltou - recebiam quantias como as repassadas para colegas próximos do poder. 

A amplitude do caso, os valores dos honorários e patrocínios, a luxosa breguice dos eventos no exterior, as incontáveis caronas em jatinhos e as tais festas de arromba nos casarões de Vorcaro são foram possíveis graças a uma conivência-geral da república. É impressionante que os beneficiários das benesses do Master aceitassem participar de tamanha, digamos, algazarra.

Ninguém é inocente para ignorar que o exercício de qualquer poder atrai carinhos, ofertas e propostas indevidos. Empresários também sabem que é possível acenar com agrados para conquistar a boa vontade de quem, em tese, deveria apenas zelar pelo bem comum, no Executivo, Legislativo e Judiciário. O uso constante e quase sempre impune do cachimbo da roubalheira entornou não apenas bocas, mas também uma certa consciência nacional, transformou em infinita a tolerância com práticas incorretas.

A escalada de safadezas - em todos os sentidos - só foi possível graças a uma histórica tolerância brasileira com esse tipo de jogada, algo que vem das capitanias hereditárias, passou pelo Império, contaminou a República, inclusive - e principalmente - durante a ditadura. Quem duvida deveria ler as reportagens de 1976 do jornal O Estado de S.Paulo sobre as mordomias e o livro "Estranhas catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988", de Pedro Henrique Pedreira Campos.

Como observado pelo colega William França, aqui do Correio, o golpe do Master no BRB - Banco de Brasília, uma instituição pública - ultrapassa os R$ 30 bilhões. O lançamento da atual missão Artemis II custou o equivalente a R$ 22 bilhões. A grana desviada do contribuinte brasiliense seria suficiente, portanto, para mandar muita gente para o espaço. 

Por aqui, não é comum jogar esse povo pro alto - a Lava Jato, apesar de ter apontado muitas trajetórias criminosas, botou tudo a perder ao se transformar em plataforma de consolidação e lançamento de carreiras políticas, acabou explodindo como foguetes na Base de Alcântara. Já passou da hora de revisar os projetos e cálculos, de retirar da órbita institucional brasileira essa gente que tanto sabota os voos do país.