Kassab e o partido dos 15%

A postura do ex-prefeito paulistano não chega a ser novidade no país do MDB, mas ele conseguiu o que parecia impossível - radicalizar a falta de compromisso.

Por Fernando Molica

Kassab preserva as possibilidades de negociação

Presidente-dono do PSD, Gilberto Kassab abriu o jogo. Em evento do Bradesco disse que achará ótimo se  seu candidato à Presidência, Ronaldo Caiado, conseguir 15% no primeiro turno, o que daria ao seu partido um grande poder de barganha na hora de oferecer apoios na rodada decisiva: "São 15% que nós vamos chamar alguém, porque essa alternativa ela é séria, e falar: 'olha, nós vamos apoiar porque nós queremos isso, isso, isso'".

A reiteração do "isso" é, até para maus entendedores, uma versão resumida e atualizada do trecho da oração de São Francisco de Assis apropriado — ó pecado mortal! — pelo ex-deputado Roberto Cardoso Alves, o padroeiro e definidor do Centrão: "É dando que se recebe". 

O perfil de Caiado, desde sempre alinhado a posições radicais de direita, proíbe qualquer possibilidade de um eventual apoio a Lula (PT) no segundo turno.

Mas nada impede que o PSD, mais uma vez em nome da governabilidade, dos grandes interesses do povo brasileiro — ou de qualquer uma outra baboseira — migre para o palanque do presidente. O ex-governador de Goiás demonstraria sua preferência pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e a vida do PSD seguiria em paz e sem atropelos.

Kassab é tão bom nisso que, a seis meses da eleição, tem correligionários fechados com Lula e com Flávio — com jeito, isso tudo vai. Como ele próprio já resumiu, seu partido não é centro, de esquerda ou de direita, define-se pela negação de princípios ideológicos e pela afirmação de  busca de oportunidades: é isso, não custa repetir.

Mestre no milagre da multiplicação de pés capazes de embarcar em quantas canoas houver disponíveis no cais do poder, Kassab, até outro dia, era um forte integrante do governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), o preferido de boa parte da direita para duelar com Lula. A posição em São Paulo não impediu o PSD de comandar três ministérios do governo petista. 

Kassab é radical na sua capacidade de conciliar, de fazer um jogo de ganha-ganha. Ao bancar o lançamento de um candidato presidencial, ele, diferentemente do que poderiam pensar os que não entendem disso, não brigou com nenhum dos dois que lideram as pesquisas. Apenas tratou de arrumar um bom lugar para, lá na frente, negociar seu apoio — isso, isso, isso.

A postura do ex-prefeito paulistano não chega a ser novidade no país do MDB, mas ele conseguiu o que parecia impossível: radicalizar a falta de compromisso.

O arranjo emedebista sempre foi outro, menos centralizado, vinculado principalmente às lógicas regionais. O PSD de Kassab respeita as opções de lideranças estaduais, mas deixa claro que questões nacionais são com ele — deixa isso comigo, parece dizer.

Faz isso tudo com tanta competência que não atraiu sequer um ódio histórico da esquerda ao largar o governo Dilma Rousseff — era ministro das Cidades — às vésperas da Câmara dos Deputados deflagar o afastamento da então presidente. Na sua avaliação, era isso que precisava ser feito. 

Nos últimos meses, fez críticas pontuais a Lula e a Bolsonaro-pai, era preciso justificar o lançamento de um candidato ao Palácio do Planalto. Mas não falou nada que pudesse invibilizar o apoio ao petista ou ao primogênito do ex-presidente. No fim das contas, é isso que importa.