Vampiros que estão entre nós

A vampirização deixa assim de ser apresentada como um evento mágico e inusitado e passa a ser vista como um processo de espoliação, de negação de humanidade; algo que, no limite, compromete a própria lógica de exploração de sangue ao marcar sociedades e países.

Por Fernando Molica

Vencedor do Oscar de melhor ator, Michael B. Jordan interpreta gêmeos no filme

Numa das melhores cenas de "Pecadores", de Ryan Coogler, o vampiro-mor Remmick (Jack O'Connell) questiona Fumaça, um dos gêmeos negros interpretados por Michael B. Jordan, sobre as relações raciais na comunidade em que vivem, no sul dos Estados Unidos da década de 1930.

Fala da opressão dos brancos simbolizada na Ku Klux Klan, frisa que o empreededorismo familiar — a criação de um clube de blues para negros — seria inviabilizada, que ele mesmo, branco, era vítima do preconceito (seu personagem tem evidentes origens irlandesas).

É como alertasse Fumaça: ninguém nasce vampiro, mas todos corrermos o risco de tomarmos uma mordida na jugular e, assim, passarmos compulsoriamente desta para a inegavelmente pior, condenados a vagar eternamente por aí em busca de mais sangue e pescoços. O processo de vampirização é contínuo.

O ciclo fica ainda mais evidente em meio ao racismo institucionalizado do sul norte-americano, onde negros eram vampirizados pelos brancos que lhe sugavam corpos, almas, mentes, culturas: "Eles (os brancos) gostam da nossa música, mas não gostam da gente", diz — a citação não é literal — um dos personagens, negro e músico. 

A vampirização deixa de ser apresentada como um evento mágico e inusitado e passa a ser vista como um processo de espoliação, de negação de humanidade; algo que, no limite, compromete a própria lógica de exploração de sangue ao marcar sociedades e países.

De alguma forma, todos seremos vítimas, até mesmo os que se julgam impunem, chupam sangue de canudinho e percorrem os céus em asas velozes e emprestadas — sequer precisam fazer esforço para voar.

Assim como a mostrada no filme, a vampirização brasileira está há séculos na nossa cara; não nos faltam vampiros e pescoços. O resultado dessa desenfreada chupação de sangue está nas ruas, nas favelas, na violência que gera vítimas e algozes, que espalha pelo asfalto sangue tantas vezes recolhido em palácios e bancos.

Em outra cena de "Pecadores", o personagem que fala da admiração dos brancos pelo blues lembra que, em determinadas apresentações para plateias em clubes segregados, ele e outros músicos notavam que, entusiasmados, brancos começavam a marcar o ritmo corretamente com os pés.

Eles, os músicos negros, tratavam então de mudar o andamento das canções, evitavam que o público se apropriasse do que produziam: mudar o compasso, causar desconforto e até trocar a partitura não deixam de ser alternativas, estacas de madeira simbólicas na briga pelo fim da cruel dança vampiresca.