Os chateados-gerais da República

Se suas excelências fizeram beicinho porque consideram que houve indelicadeza por parte de Fachin e Lula, imagine o tamanho da nossa indignação, nós que pagamos os salários de todos eles.

Por Fernando Molica

Presidente do Senado ficou irritado com Lula

Deu nos jornais que ministros do Supremo Tribunal Federal e senadores — entre eles, o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP) — andam chateados, capazes até de recuperarem a hastag #chatiados que fez sucesso em redes sociais.

A irritação no STF seria com o presidente da corte, Edson Fachin, que falou o óbvio: 1. juízes podem errar e precisam responder por isso; 2. quem age de maneira não ética precisa repensar suas atitudes. Alguém seria capaz de discordar dessas singelas observações?

Já Alcolumbre estaria magoado com o presidente da República porque este não lhe avisou que enviaria para o Senado a indicação de Jorge Messias para o STF. Outros senadores ficaram revoltados porque Lula, em entrevista, disse que senador pensa que é Deus por ter mandato de oito anos.

Se suas excelências fizeram beicinho porque consideram que houve indelicadeza por parte de Fachin e Lula, imagine o tamanho da nossa indignação, nós que pagamos os salários de todos os citados nos três primeiros parágrafos deste texto.

Um ministro do STF — Dias Toffoli — manteve em sigilo durante um bom tempo que havia sido sócio de resort no Paraná; foi ver a final da Libertadores ao lado de um advogado do grupo Master, ambos, de carona num jatinho de empresário.

Segundo a Folha de S.Paulo, Alexandre de Moraes, outro integrante da corte, viajou oito vezes em jatinhos de empresas ligadas a ex-diretores do Master. Mulher de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes, diz que seu escritório alugou serviços de táxi aéreo. Sua banca era a que recebia R$ 3,3 milhões mensais do banco. Já o filho do ministro Nunes Marques recebeu pagamento de consultoria paga pelo Master e pela JBS.

Os ministros da suprema corte já deveriam ter notado que os problemas que afetam a credibilidade da suprema corte foram criados por eles, não por Fachin, que apenas verbalizou — de maneira educada e até contida — o pensamento de qualquer cidadão. Diante de um incêndio que eles mesmos provocaram, integrantes do STF parecem mais preocupados com o tipo de ruído produzido pelo alarme.

Alcolumbre tem todo o direito de discordar de Lula. Mas, no caso da indicação de Messias, agiu de maneira muito mais condenável que o presidente. Claro que essa história de escolher amigos de fé, irmãos camaradas para o STF é péssima, mas a Constituição diz que isso é prerrogativa do presidente da República, não do presidente do Senado. E Alcolumbre fez de tudo para impor seu favorito. Birra por birra, imagine a dos servidores do Amapá, que viram R$ 400 milhões de seu fundo de pensão virarem pó em papéis do Master. O governador do estado é aliado de Alcolumbre.

Já senadores demonstram uma fúria divina ao serem comparados a Deus — logo eles que, em dezembro passado, deram benefícios celestiais a funcionários da Casa. Deveriam ficar orgulhosos com o reconhecimento de seu poder e, mesmo, independência (vale lembrar que Darcy Ribeiro, logo depois de assumir seu mandato, disse que o Senado era o Céu).

Ministros do STF e senadores, são poderosos, têm o sagrado direito de contestarem suspeitas e até de ficarem meio magoados. Mas, caramba, não transformem questões pessoais em crises institucionais, vocês têm mais o que fazer.