Disputas numa grande família
Por mais identificado que seja com visões de mundo da extrema direita, o grupo familiar de Bolsonaro gira em torno do próprio eixo, algo que se evidencia na falta de propostas mais amplas para o país.
Ao afirmar que a família Bolsonaro tem que resolver seus problemas de relacionamento para que um de seus integrantes — Flávio Bolsonaro — ganhe a disputa presidencial, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, abordou o individualismo que marca a atuação do clã.
Por lá, cada um atua com os olhos voltados para o umbigo. Como o próprio Costa Neto admitiu pouco depois, há muitos membros da família do ex-presidente envolvidos na política: seis, levando-se em conta apenas marido, mulher e filhos.
Por mais identificado que seja com visões de mundo da extrema direita, o grupo familiar gira em torno do próprio eixo, algo que se evidencia na falta de propostas mais amplas para o país.
O discurso de seus integrantes varia em torno de conceitos vagos e amplos como defesa da família, da anistia e da religião, dureza contra bandidos, pregação contra o comunismo, o PT e a corrupção.
O senador Flávio não foi escolhido pelo pai para disputar o Planalto por ser, entre os aliados mais próximos, o supostamente mais capaz e com melhores condições de impedir a reeleição de Lula. Ganhou o posto por ser filho de Jair — a prioridade do ex-presidente era passar a bola para um dos herdeiros. No seu terceiro casamento, nunca demonstrou entusiasmo por uma candidatura presidencial da atual mulher, Michelle. Filho, afinal, nunca deixa de ser filho.
Entre integrantes da oposição, entre eles o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, há os que levantam a voz para criticar o governo, apresentam argumentos, números, cumprem a missão que lhes cabe.
Mas o projeto bolsonarista é tão focado na própria família e em seus interesses imediatos que sequer ouvimos algum integrante do clã defendendo propostas que não sejam restritas à lógica de reconquistar e manter o poder.
Ainda é cedo para que Flávio Bolsonaro apresente um programa detalhado de governo, mas ele defende o quê? Que despesas públicas pretende cortar caso mesmo pretenda aderir à lógica liberal de diminuir impostos? Ele é a favor das medidas tomadas pelo governo para tentar segurar o preço do diesel, continuará apoiando Donald Trump se a guerra contra o Irã se alongar? Acha bom que se motoristas e motociclistas que trabalham para aplicativos tenham uma remuneração mínima por corrida?
Sabemos que discussões em torno de programas de governo não costumam ser muito impactantes em eleições, até pelo tamanho da distância que há entre prometer e cumprir. Mas experiências recentes de governos díspares — Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e Lula — permitem que tenhamos alguma diferenciação entre propostas feitas por admistrações mais para lá ou mais para cá. Seria importante deixar isso claro, até para que ninguém volte a descobrir a existência, no Planalto, de alguém que militava contra vacinas.
A resistência bolsonarista em definir parâmetros mínimos para um eventual governo tem a ver com algo simples. Jair, filhos e mulher sabem ser mais simples e produtivo investir em temas abstratos, aqueles de sempre, pátria, Deus, família.
O script é o de sempre: no fim das contas, a disputa tem a ver com o ego e vaidade, são atores disputando a frente do palco.