O quarto Caiado dos Bolsonaro

A questão é saber se o governador goiano vai atacar Lula como candidato ao título ou se rezará pela mesma cartilha do Padre Kelmon em 2022 e do Pastor Everaldo em 2014

Por Fernando Molica

Ronaldo Caiado, pré-candidato do PSD à Presidência

Escolhido candidato ao Palácio do Planalto por Gilberto Kassab, presidente-dono do PSD, Ronaldo Caiado vai demonstrar na campanha se será mesmo uma alternativa de poder ou se não passará de um quarto Caiado a serviço da família de Jair Bolsonaro.

O sobrenome do governador é o mesmo de três integrantes da equipe de saúde que cuida do ex-presidente: o médico Brasil, o psicólogo Ricardo e o fisioterapeuta Kleber.

Diferentemente dos também governadores Ratinho Júnior (que desistiu de tentar a Presidência) e Eduardo Leite, o político goiano segue uma linha muito parecida com a dos Bolsonaro. Um dos fundadores, em 1985, da UDR (União Democrática Ruralista), assumiu postura radical e antipetista em um período em que a direita sequer ousava dizer seu nome. 

Naqueles tempos de consolidação da democracia, o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra) era visto de maneira tão simpática que, em 1996, ganharia destaque na novela "Rei do gado", da Globo. Caiado não vacilou em posar de antagonista — isso numa época em que fazendeiros eram chamados de fazendeiros, não de ruralistas.

Apesar da baixa votação recebida em 1989, quando não alcançou nem 1% dos votos na disputa presidencial, Caiado aproveitou a exposição para atacar o PT e, depois, lançar-se numa bem-sucedida carreira política: foi deputado federal, senador e governador.

Com Leite, o PSD teria a chance de tentar exercitar a tal da terceira via, uma direita civilizada, que não vê na esquerda a encarnação do Coisa Ruim e não ameaça chamar a polícia ao menor sinal de mobilização popular. Ao optar por Caiado, Kassab partiu para o confronto — resta saber se apenas com Lula ou se também com Flávio Bolsonaro, favorito para ficar com os votos da direita.

Ao correr na mesma faixa do senador carioca, Caiado — como já foi dito aqui — se arrisca a encarnar uma versão genérica do bolsonarismo, algo que talvez vingasse caso tivesse, como adversário na direita, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, uma espécie de nem-nem do tabuleiro: a esquerda não acredita em sua moderação; a extrema direita desconfia de seu radicalismo.

Bom de palanque e de debates, Caiado tende a fazer com Flávio uma espécie de dueto contra Lula, o que exigirá deste uma performance melhor que a de 2022, quando, em alguns casos, teve dificuldades de reagir a pancadas verbais desferidas por Jair.

Não dá para adivinhar se o governador goiano vai atacar os dois adversários ou se rezará pela mesma cartilha do Padre Kelmon em 2022 e do Pastor Everaldo em 2014. Ambos entraram nos altares dos debates com o único objetivo de desferir golpes mais pesados nos antagonistas de respectivamente, Jair Bolsonaro e Aécio Neves.

Com suas provocações dirigidas a Lula e a Dilma, respectivamente, o padre e o pastor chutavam os baldes e, assim, poupavam seus amigos de fé de embates mais delicados.

Aos 76 anos — 77 em setembro —, Caiado terá a chance de mostrar se entrará na disputa para valer ou se atuará como coadjuvante de luxo, ator que, nos programas humorísticos, faz "escada", prepara o terreno para a piada que será contada pelo protagonista. Revelará se tentará ser astro da companhia ou mais um do grupo que fica em volta dos Bolsonaro.