Estado do Rio: a Bolívia é aqui

De todos os ocupantes do Palácio Guanabara eleitos a partir de 1982, apenas dois, Leonel Brizola (que ocupou o cargo duas vezes) e Marcello Alencar ficaram incólumes.

Por Fernando Molica

Castro renunciou para evitar cassação de seu mandato

A condenação de Cláudio Castro pelo Tribunal Superior Eleitoral ressalta uma espécie de padrão boliviano na chefia do Poder Executivo fluminense: dos noves governadores eleitos depois da redemocratização, cinco foram presos, um sofreu impeachment e um sétimo (Castro) só não foi defenestrado porque renunciou na véspera de seu julgamento. O país vizinho teve, entre julho de 1978 e agosto de 1985, nove presidentes e duas juntas militares.

Dos ocupantes do Palácio Guanabara eleitos a partir de 1982, apenas dois — Leonel Brizola (que ocupou o cargo duas vezes) e Marcello Alencar — ficaram incólumes. Como não se pode atribuir o problema à água fornecida pela Cedae, vale tentar entender o que se passa. 

A questão da violência é importante, até pela predominância da lógica do domínio territorial — modelo talvez herdado dos bicheiros, adotado por traficantes e milicianos e por estes negociado com políticos. A tolerância com o ilegal — de novo vale citar o jogo do bicho — minou relações institucionais.

Cientista político, professor da UERJ, Christian Lynch atribui boa parte dos problemas à fusão, implantada pela ditadura em 1975, dos antigos estados do Rio e da Guanabara (que ocupava o mesmo território da cidade do Rio de Janeiro).

Em texto no X, ele ressalta que outros estados surgiram por desmembramento; apenas o novo Rio de Janeiro "nasceu da sobreposição forçada de estruturas preexistentes". Ele frisa que a cidade do Rio jamais deixou de exercer funções federais, administrativas e simbólicas, que a distinguem de outras capitais. Formou-se então o que chama de "ente híbrido".  

A fusão ocorreu em boa parte pelo desejo da ditadura de esvaziar o MDB: a Guanabara era o único estado governado pelo partido de oposição; a união forçada diminuiu o poder de GB e RJ no Congresso, gerou a perda de deputados federais e de três senadores.

As realidades econômicas eram bem diversas. Estudo de André Villela e resumido por João Gabriel Garcez e Marcel Balassiano revela que, com a fusão, a renda per capita dos cariocas caiu 78,8% de 1973 para 1975. E olha que a cidade já perdera muitas verbas com a transferência da capital para Brasília

As diferenças entre os antigos estados provocaram uma sensação de terra de ninguém: para Lynch, governadores vindos do interior não gostam da capital e prefeitos cariocas não conseguem chegar ao governo estadual. Conclui que "onde a autoridade é ambígua e as competências se sobrepõem, a responsabilização se enfraquece e as redes predatórias prosperam". Dos nove governadores, apenas Sérgio Cabral (também eleito duas vezes) e Alencar nasceram na capital fluminense; quatro (Brizola, Moreira  Franco, Wilson Witzel e Castro) vieram de outros estados.

Defendida pelo Império Serrano em seu desfile de 1988, uma desfusão parece inviável. Mas é preciso superar o impasse que vitima o Rio de Janeiro, algo que passa por uma discussão política séria que supere interesses menores e bravatas policialescas: temas com frequência escusos, volta e meia encobertos por discursos mais ligados à fé do que à administração pública.