Caiado e o bolsonarismo genérico

Caiado, portanto, terá um duro trabalho pela frente, o parecer mais radical e firme do que um herdeiro direto do líder de uma corrente política que só sabe jogar pesado.

Por Fernando Molica

Governador de Goiás corre na mesma faixa do bolsonarismo

Ao decidir ficar na toca estadual e abrir mão da disputa da Presidência, o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), reforçou a possibilidade de a eleição de 2026 imitar a de 2022 e, de tão polarizada, fazer do primeiro turno uma quase disputa final. Na disputa passada, 91,63% dos votos válidos na primeira rodada foram para Lula (PT) ou Jair Bolsonaro (PL).

Alçado à condição de provável candidato do PSD, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, mantém ao longo de sua trajetória um discurso agressivo e contundente contra o PT. Posição que tem muitos pontos de contato com o bolsonarismo. Corre o risco de, na campanha, virar uma espécie de genérico do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). 

A estratégia de Ratinho Júnior seria a de tentar conquistar o voto conservador menos radical, apostaria no eleitor de direita que não se sente confortável com o estilo briguento da família do ex-presidente. Ao sair da disputa, abre espaço para que Flávio cresça num eleitorado mais moderado, que rejeita o petismo.

Caiado, apesar de algumas rusgas com Bolsonaro na época da pandemia, corre na mesma faixa desde que entrou na vida pública, em 1985, como um dos fundadores da UDR, União Democrática Ruralista. A entidade nasceu em resposta à criação do MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, e ao então crescente movimento por reforma agrária.

Em 1989, tentou a Presidência da República: obteve apenas 0.68% dos votos, ficou em décimo lugar, mas marcou uma posição que lhe garantiria sucessivos mandatos legislativos e no executivo de Goiás. Ortopedista, não vacila em entrar duro nas canelas adversárias. 

Terá, porém, a dificuldade de conquistar um eleitor que desde 2018 se nutre do ódio cultivado por Bolsonaro à esquerda. A dureza que prega no trato da segurança pública é muito parecida com a ressaltada pela família do ex-presidente. Caiado chegou primeiro, mas os Bolsonaro é que conquistaram esse território.

Sua eventual candidatura tem potencial também de permitir a Flávio a possibilidade de construir uma imagem menos dura e mais palatável. Em tese — em eleição não há verdades absolutas — será difícil que senador fluminense, até por ser filho de quem é, seja acusado por bolsonaristas de não ser um defensor das pautas do pai. 

Caiado terá um duro trabalho pela frente, o parecer mais radical e firme do que um herdeiro direto do líder de uma corrente política que só sabe jogar pesado. A tendência, porém, é de, por falta de opções diferenciadas, a direita permaneça onde está, reforce a polarização e, de cara, reduza a disputa a Lula e Flávio.

O discurso brigão do governador também contrasta com o estilo consagrado pelo presidente-dono do PSD, Gilberto Kassab, polvo político capaz de colocar seus braços em quantas canoas estiverem disponíveis. A indicação de Caiado representaria uma guinada do partido em uma direção que tenderia a fugir do controle do seu fundador.

A fidelidade de Kassab aos seus princípios conciliadores é talvez a única esperança do azarão do PSD, o governador gaúcho Eduardo Leite, que se encaixaria muito melhor na lógica do não radicalismo. Às vezes, jogar parado garante bons resultados.