PMs fizeram o que muitos querem

Na visão dos policiais que atiraram em Andrea, ela seria mais um silva que, no boletim de ocorrência, acabaria apresentado como autor de uma injusta agressão aos homens da lei.

Por Fernando Molica

Andrea Marins Dias, morta por policiais militares no Rio

Ao atirarem na cirurgiã Andrea Marins Dias, de 61 anos, policiais militares cumpriram desejos de boa parte da sociedade e de governantes: miraram num carro dirigido por uma pessoa negra e que, para eles, parecia suspeito.

Vale lembrar: em dezembro passado, a Assembleia Legislativa do Rio transformou em lei projeto que recriou a chamada gratificação faroeste, bônus para premiar policiais civis que matarem supostos criminosos.

A operação de outubro passado nos complexos do Alemão e da Penha que terminou com 122 mortos, entre eles, quatro policiais, contou com o aplauso da grande maioria da população, apesar de sua evidente inutilidade — ou será que alguém aí acha que a paz foi restabelecida naquelas favelas, que assim deixaram de ser dominadas pelo crime? 

O caso da dra. Andrea só mereceu destaque porque a vítima foi uma mulher, médica. Se fosse um homem negro, jovem, pobre, de baixa escolaridade, talvez o caso sequer virasse notícia. Em caso de registro em programas que respaldam e incentivam a violência policial, é até provável seu nome fosse citado ao lado da palavra "envolvido".

A frase "Vai morrer, irmão, desce!", que teria sido dita por um PM à médica já baleada, indica que ela foi confundida com um homem: era noite e, pelas fotos, Andrea não usava cabelos compridos. Na visão dos policiais, ela seria mais um silva que, no boletim de ocorrência, acabaria apresentado como autor de uma injusta agressão aos homens da lei.

As primeiras descrições do caso assustam pela forma com que traduzem a banalização de ações policiais violentas. Os PMs teriam sido alertados por um pedestre de que homens num Corolla Cross faziam assaltos na região. Isso foi suficiente para que eles desencadeassem busca por ruas de Cascadura, subúrbio carioca — certamente não agiriam da mesma forma se estivessem no Leblon ou Ipanema. 

Foi com base no tal alerta de um cidadão que os policiais teriam identificado carros suspeitos e iniciado uma perseguição que terminaria com tiros, morte de Andrea. 

Apenas a certeza do respaldo político e social e a quase garantia de impunidade permitem que agentes públicos atuem dessa forma. Os PMs jamais cometeriam essa provável sequência de absurdos se não contassem com os aplausos de muita gente, inclusive de autoridades. Alardeada por tantos políticos, a lógica do pega-mata-come cria uma falsa sensação de combater ao crime e ajuda a disseminar mais violência, a gerar mais vítimas.

A tolerância com a violência policial não deve, porém, servir de atenuante para os PMs que mataram Andrea, eles têm que ser julgados com severidade, para que se faça justiça, para que vidas sejam poupadas. Mas o episódio deveria ser capaz de gerar alguma reflexão por parte de cidadãos que ajudam a apertar o gatilho das armas que matam tanta gente.

É compreensível que tenhamos medo da violência, de andar pelas ruas. Mas não é razoável insistir num tipo de combate que, ao longo de décadas, prova ser cruel, racista e ineficiente. Pior, serve apenas de biombo para o crime — é só ver o que aconteceu nos últimos meses com alguns deputados estaduais, homens que faziam coro à política do extermínio. O grito "Vai morrer, irmão" foi sugerido por muita gente nos ouvidos dos PMs que mantaram Andrea.