Filmes que dão poder ao Brasil
A nova presença de um filme brasileiro na mais conhecida premiação cinematográfica reforça algo que o mundo aprendeu a chamar de "soft power".
Escrevo na manhã de domingo, não tenho, portanto, a menor ideia dos resultados do Oscar, mas sei que, independentemente de eventuais prêmios para "O agente secreto", o Brasil, mais uma vez, foi vencedor em Hollywood.
E aqui não vai qualquer arroubo nacionalista. A nova presença de um filme brasileiro na mais conhecida premiação cinematográfica reforça algo que o mundo aprendeu a chamar de "soft power". A expressão em inglês vai além de sua tradução ao pé de letra, mais que um poder suave, é algo que associa determinados locais do planeta a sentimentos legais, interessantes, chamativos, sedutores.
Há mais de cem anos que o cinema norte-americano pratica esse tipo de sedução e de encantamento. Ao longo de todo esse tempo, os Estados Unidos declararam um incontável número de guerras, invadiram países, derrubaram governos, atacaram a democracia, patrocinaram ditaduras, reconstruíram o conceito de colonialismo (vale ressalvar que foram decisivos para a derrota do nazifascismo).
Os caras fizeram isso tudo, mas, nos deram os filmes de Chaplin, o bailado de Gene Kelly e Fred Astaire, o E.T., a noviça rebelde, Woody Allen, o jazz — Miles Davis, Louis Armstrong, Duke Ellington, George Gershwin, Chet Baker, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Frank Sinatra —, o rock, a Broadway, o Donald. Gerações e gerações de pessoas aprenderam a amar tantos talentos e produções que dialogavam com seus desejos e angústias e apontavam caminhos, até mesmo os que levavam a hot dogs e hambúrgueres.
A França é outro país que, ao longo de sua história, pintou e bordou, ocupou, promoveu massacres como na Argélia, teve a cara de pau de impor ao Haiti o pagamento de uma indenização bilionária por sua independência, só quitada em 1947. Mas, mon Dieu, a França é a terra da Marselhesa, dos vinhos, dos queijos, da educação, do refinamento, do bom gosto, da alta culinária, de Charles Aznavour, de Victor Hugo, de Molière, do futebol de Zidane — é lá que fica Paris.
EUA e França são dois dos melhores exemplos de exercício do soft power, algo que exporta simpatias, mas também riquezas: filmes, livros e canções geram sensações, pensamentos e reflexões, mas também estimulam hábitos de vida, roupas, tênis, carros, jeans, tecnologia; impulsionam o turismo, o desejo de conhecer locais capazes de produzir tanta beleza.
Carmen Miranda, Tom Jobim, Jorge Amado, Pelé, Garrincha, as escolas de samba apresentaram ao mundo um Brasil gostoso, cheio de molho, adorável. Um país, apesar de tantos problemas, sempre foi sinônimo de alegria. De uns tempos para cá, esta terra passou a ser sabotada por adoradores do ódio, inimigos do prazer e do conhecimento. Uma lógica de destruição que afetou a imagem havia tantos anos construída do Brasil no exterior e que sabotou artistas e suas produções.
O sucesso internacional de "Ainda estou aqui" e de "O agente secreto" ajuda a religar o mundo ao nosso país. Os filmes mostram nossas caras, nossas falas, nossos sotaques, nossa diversidade; ressaltam nossas belezas e mazelas, nos faz mais humanos.
As zilhões de entrevistas dadas por Fernanda Torres e Wagner Moura para TVs do mundo inteiro promoveram os filmes em que atuaram, mas também destacaram a existência do Brasil; despertaram a curiosidade sobre outros aspectos do país, seus produtos, suas festas, suas belezas, suas potencialidades. Mais do que tudo, frisaram nossa pirraça e nossa vontade de sorrir mesmo nos momentos mais duros.