A gota d'água que afogou Vorcaro

O ex-banqueiro é apenas o destaque principal do abre-alas de um desfile de impropriedades, pilantragens e jogadas que marcam nossa história.

Por Fernando Molica

Vorcaro não contava com o fim da festa que organizou

O escândalo do Banco Master tem tudo para ser o que se convencionou chamar de gota d'água, fato isolado capaz de estourar todas as comportas que impediam a explosão de uma correnteza com potencial de arrastar tudo à sua frente.

Daniel Vorcaro é um símbolo da vulgaridade, do deslumbramento e da roubalheira que caracterizam uma razoável parcela de uma elite brasileira, grupo nascido da histórica espoliação do país, herdeiro de incontáveis negociatas financiadas com dinheiro público.

O ex-banqueiro é apenas o destaque principal do abre-alas de um desfile das impropriedades, pilantragens e jogadas que marcam nossa história. Ao longo de séculos, ele e seus cúmplices portam a bandeira que autoriza o uso do Estado para fins privados.

Ao longo de sua curta e, até outro dia, muito bem sucedida carreira, o ex-apresentador de programa de música gospel, comprou autoridades, aplausos e reputação. Construiu, com a ajuda de gente muito bem paga, a imagem de competente, desbravador, indomável, um figurino abençoado pelo batismo nas águas de uma lagoinha onde se multiplicam peixes graúdos, vorazes e insaciáveis. 

A construção de um sujeito desprezível, que tanto ostentava jatinhos, uísques de não sei quantos anos, e eventos milionários só é possível numa sociedade onde haja muita gente capaz de aplaudir e invejar comportamento tão arrivista.

Gente que, no fundo, almeja também chegar lá, lá no mundo de festas cafonas (uso aqui o adjetivo resgatado pelo escritor Sérgio Rodrigues), comemorações que impressionam pela breguice e pelo desperdício, que parecem saídas do livro "Coisa de rico", de Michel Alcoforado. Mais do que festejar, eles querem se exibir, tripudiar da pobreza que ajudam a produzir.

Buscam despertar raivas e cobiças, atuam como caçadores de talentos, procuram pessoas que, diante de tanto deslumbramento, não vacilariam em mandar às favas qualquer escrúpulo de consciência. 

Vorcaro, seu parça Fabiano Zettel e todos os seus cúmplices no Banco Central e nos poderes da República são benditos frutos de uma floresta continuamente adubada e renovada há mais de cinco séculos, como escreveu o poeta Affonso Romano de Sant'Anna:

Há 500 anos caçamos índios e operários,

há 500 anos queimamos árvores e hereges,

há 500 anos estupramos livros e mulheres,

há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

Há 500 anos, vale acrescentar, cultivamos personagens como Daniel Vorcaro, homens risonhos capazes de mandar quebrar os dentes de quem ouse atravessar seu caminho. Ele não construiu sua trajetória sozinho, como naqueles melodramas, tudo que tem foi conquistado graças à colaboração de terceiros.

Mas ambição tão descarada costuma vir acompanhada de uma espécie de cegueira, de uma ilusão de poder absoluto, incapaz de ser detido. Vorcaro parece ter acreditado na solidez dos seus CDBs de banco imobiliário e nos papéis gelados comprados por estados e municípios.

Achou que, a exemplo do também preso Jair Bolsonaro — que recebeu R$ 3 milhões de Zettel —, era imbrochável, imorrível e incomível. Ultrapassou o limite da irresponsabilidade, não contou com a gota que faltava pro desfecho da festa.