Lula e o emprego do passado
Ao pregar um modelo que jovens, por experiência própria, sabem ter sido superado, Lula acena com o passado, e não com o futuro
Um conselho de Lula a uma jovem de 22 anos, semana passada, durante entrega de apartamentos no Rio, ajuda a explicar o porquê dele ser tão mal avaliado entre jovens. Ainda preso à lógica do emprego de carteira assinada, o presidente diz pra moça a estudar para ter uma profissão e um salário.
Deve ser difícil para alguém com sua história de vida entender a rejeição à CLT. Um dos milhões de nordestinos que migraram para o Sudeste nos anos 1950, Lula foi um dos muitos beneficiados pelo modelo de industralização que exigia muita mão de obra e entregava salários bem razoáveis para o padrão brasileiro.
Lula é de uma geração que encontrou nas fábricas profissão, emprego e possibilidade de ascensão social. Formou-se torneiro mecânico graças a um convênio de sua empresa com o Senai. Em depoimento publicado por Fernando Morais no primeiro volume de "Lula", biografia do presidente, o petista contou:
— Fui o primeiro filho da minha mãe a ter uma profissão, eu fui o primeiro filho da minha mãe a ganhar mais que o salário mínimo, eu fui o primeiro a ter uma casa, eu fui o primeiro a ter um carro, eu fui o primeiro a ter uma televisão, eu fui o primeiro a ter uma geladeira.
Foi também nas fábricas que ele descobriria a vida sindical, a organização dos trabalhadores, abraçaria projetos coletivos, entraria para a política, chegaria à Presidência da República. Mas, hoje, seria quase impossível repetir sua história de trabalhador. Dificilmente alguém nas mesmas condições que ele conseguiria emprego semelhante, não há mais tantas boas vagas para jovens como o que ele foi.
A visão coletiva do trabalho, que fortalecia sindicatos e possibilitava greves, deu lugar a projetos individuais, muitas vezes ligados à ideia do empreendedorismo. Até a prática religiosa mudou: saiu a lógica socializante da Teologia da Libertação católica e entrou a Teologia da Prosperidade evangélica.
A luta pela adoção de uma escala de trabalho menos cruel que a de seis por um é justa e necessária. Mas, Lula, jovens querem mais do que ficar de pé o dia inteiro atrás de balcão de farmácia ou de lanchonete. Sabem que, do jeito que a banca toca, ficarão pra sempre enchendo tanques de carros alheios e voltarão de ônibus pra casa.
Por mais frágil que seja a ideia de considerar empreendedor aquele que rala entregando comida sobre uma moto, a opção é tida como mais interessante para milhões de jovens que não querem reproduzir a história familiar de pobreza. Estudar é fundamental, mas demanda um investimento de muitos anos e de resultados incertos, é só ver a disputa acirrada por vagas em concursos públicos.
Ao pregar uma visão de trabalho antiga, Lula acena com o passado, e não com o futuro — e recebe a tréplica nas pesquisas que apontam sua impopularidade entre jovens; rapazes e moças que querem ir além da carteira assinada e da casa em conjunto habitacional entregue pelo governo.
São pessoas que querem fugir da história do aprender a pescar: pescadores ganham muito pouco, afinal. Talvez Lula se torne mais atraente se acenar também com alternativas, inclusive educacionais, que ajudem esses jovens a montar pequenas empresas e negócios, até mesmo relacionados à pesca.