Ficção que desembaralha vidas

Romance de Godofredo de Oliveira Neto trata de memórias privadas e coletivas

Por Fernando Molica

Escritor catarinense integra a Academia Brasileira de Letras

Fazer ficção, muitas vezes, é atuar como uma antena para captar ondas que se propagam ao longo de décadas, séculos, milênios e que carregam episódios, lendas, emoções, histórias. O escritor que se vire para dar algum sentido a essa infinita coleção de fragmentos que flutua em relatos mais ou menos fixados em livros e em histórias que passam e se renovam ao longo de gerações.

Não há aí qualquer contradição entre ficção e realidade: um fato só existe quando é testemunhado e contado. Cada um de nós vê, ouve e narra de um jeito, daí que documentar também é ficcionalizar. E é a partir deste embate que Godofredo de Oliveira Neto constrói o romance "A ficcionista" (Editora Batel).

De maneira proposital, o subtítulo — "Sonhos e fantasias de uma narradora" — mais embaraça do que esclarece. No caso, há dois ficcionistas: o autor propriamente dito do livro (Godofredo, escritor premiado, professor da UFRJ, membro da Academia Brasileira de Letras) e a anunciada no título (Nikki, nascida Maria Nicodema Krüger Mescolatto Loss).

Nikki, segundo a capa do livro, é uma ficcionista; mas ela, em tese, narra uma verdade, conta sua vida para um escritor-entrevistador. Este paga para gravar o que ela diz, e avisa que usará os fatos do jeito que bem entender — fará, portanto, ficção (uma ficção dentro do próprio romance, apresentado pelo autor como algo documental, a simples transcrição de uma conversa).

Algumas das histórias narradas por Nikki, catarinense como Godofredo, remetem à Guerra do Contestado (1912-1916), uma dessas lutas inglórias, esquecidas e, ao mesmo tempo, vivas e renovadas a cada lembrança. O sobrenome da protagonista é Loss, palavra inglesa que remete a uma perda. 

As memórias de Nikki são tão factíveis e fantasiosas quanto as que tratam do monge João Maria, personagem do Contestado citado no livro, homem de tamanha complexidade que acabou virando mais de um — passou a ser três.

A tentativa de consolidar em texto a vida daquela jovem revela-se assim tão impossível quanto a de colocar ordem na memória da guerra que mobilizou posseiros e pequenos proprietários de terras contra desapropriações que viabilizariam a construção de uma estrada de ferro. 

Criada em São Paulo, Nikki tentou esboçar um projeto lógico para sua vida, virou especialista em mecânica de caminhões, capaz de decifrar minúcias técnicas de motores, movimento e direções. Mas, como aqueles homens e mulheres do oeste de Santa Catarina e do Paraná, viu-se diante de obstáculos grandes demais, incontornáveis.

Foi preciso bater de frente, brigar, desafiar o Estado, seguir caminhos erráticos que conduziram a esboços canhestros de revolução: a guerra do início do século XX, a organização, pelo grupo de Nikki, de assaltos para arrecadar bens e distribuí-los entre os pobres.

A história da jovem confunde-se assim com a de pessoas que atuaram em um conflito que ganhou contornos religosos e que, como Canudos, acabou rotulado pelo poder como uma rebelião de características antirrepublicanas. Isto, por falar em monarquia celeste, delírio do monge que reencarnava — assombração que, como Nikki, continua a vagar por aí, protegida pelos Doze Pares de França, sempre em busca da vereda profetizada e prometida que leve a um país melhor, mais justo. Ou, como reitera a protagonista, procure uma simples BR, caminho de fuga e possibilidade de destino.