Vidas que tropeçam na poesia
A graça do livro, assim como de tantas grandes obras de ficção, não é, portanto, seu enredo, mas a maneira como a história é contada.
As 428 páginas de "Poeta chileno" (Companhia das Letras), romance de Alejandro Zambra, não tratam de catástrofes, violência ou corrupção na política; seus personagens não são celebridades, jogadores de hóquei ou patinadores. O livro mostra gente comum, pessoas que têm amores, sonhos e frustrações não muito originais — personagens que nos levam a uma leitura densa, simples, divertida e emocionante.
O mote do romance é a história de amor de dois jovens, Carla e Gonzalo, namorados na adolescência que reiniciam uma relação nove anos depois do rompimento. Isso não é um spoiler: na página 43, o narrador, machadianamente, dirige-se ao leitor, avisa do futuro reatamento, e justifica: "(...) é graças a esse reencontro que esta história alcança a quantidade necessária de páginas para ser considerada um romance".
A graça do livro, assim como de tantas grandes obras de ficção, não é bem seu enredo, mas a maneira como a história é contada. Zambra transforma seus protagonistas em adolescentes como fomos ou gostaríamos de ter sido, cheios de dúvidas e certezas; em jovens adultos enrolados, atolados em questões amorosas e profissionais.
Lá pela página 60, "Poeta chileno" ganha um novo personagem, Vicente, filho de uma relação anterior de Carla. O garoto passa então a ter um papel decisivo, a gerar diversas e lindas questões sobre descobertas, prazeres, erros e paternidade.
O tal poeta citado no título é mais uma referência genérica à quantidade de jovens (Gonzalo e Vicente entre eles) que se dedicam ao gênero literário. País onde nasceram os poetas Gabriela Mistral e Pablo Neruda, ambos vencedores do Nobel de Literatura, o Chile aperta entre os Andes e o Pacífico muitos e muitos candidatos ao tricampeonato ("Somos bicampeões na copa do mundo de poesia", frisa outro personagem).
A palavra poeta estampada na capa deve ser lida mais como sinônimo de uma espécie de compromisso dos personagens com uma permanente juventude. E aí não vai uma crítica, um comentário à eventual falta de amadurecimento e de responsabilidade dos que passeiam pelas páginas, mas um elogio à capacidade que têm de não perderem o encanto e a disposição de encarerem novos desafios e amores.
O compromisso com a poesia é assim um pacto com a vida, de busca de um verso que melhor traduza o encantamento e a supresa. Uma procura que nem sempre será bem sucedida; na escrita ou na vida o risco de tropeços é grande, a chance de glória, muito menor. Mas, admite Gonzalo, quem já publicou um livro de poesia jamais deixará de ser poeta — uma sina e também um caminho de salvação e consolo.
Ao longo do livro, os personagens mantêm a esperança, a expectativa, a vontade de viver uma vida legal. Preservam a delicadeza de deixar transbordar carinho num simples encontro de padrastro com enteado, um chope capaz de superar dores, bolas na trave, silêncios pretéritos e expectativas frustradas, e que talvez aponte para um futuro. Como escreveu Aldir Blanc, os personagens insistem na juventude — o jeito é pedir mais uma rodada.
