Madre Teresa não era boa fonte

Ao jornalista não cabe julgar as intenções da fonte ou avaliar quem poderá ser prejudicado com a publicação de um documento que deveria ser sigiloso

Por Fernando Molica

Ministro Alexandre de Moraes e sua mulher, a advogada Viviane Moraes

Manter sigilo é obrigação de quem tem a guarda de documentos, não do repórter que recebe tais papéis. A este cabe apenas checar se tudo é verdade; caso seja, é importante tentar ouvir a parte citada antes de publicar uma informação que seja de interesse público.

Ao jornalista não cabe julgar as intenções da fonte ou avaliar quem poderá ser prejudicado com a publicação de um documento sigiloso. Quem vaza algo secreto tem, de um modo geral, a vontade de ferrar com a vida de alguém, se não fosse assim, ninguém divulgaria nada. E o leitor deixaria de receber informações relevantes.

É provável — não sei de nada — que dados do contrato milionário da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, tenham sido obtidos de maneira irregular e, depois, repassados para uma jornalista. Se foi isso que ocorreu, ela cumpriu com sua obrigação de checar e publicar; fez o que qualquer repórter teria feito — eu, inclusive. A história não foi desmentida.

Deve ter sido assim que ocorreu quando um vazamento de dados bancários de Fabrício Queiroz — antigo faz-tudo do hoje senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) —, e de sua mulher, Márcia, mostrou que o casal tinha feito depósitos na conta de Michelle Bolsonaro. Na época, a esquerda adorou a revelação.

Lá atrás, quando explodiram denúncias contra Fernando Collor de Mello, jornalistas receberam documentos bancários que provavam a existência de Caixa 2 no governo. Tesoureiro de campanha e primeiro-amigo de Collor, Paulo César Farias comandava legiões de correntistas-fantasmas que, abastecidos com dinheiro sujo, bancavam a vida do então presidente. 

Um desses extratos teve papel decisivo nas investigações e no impeachment de Collor ao mostrar que seu Fiat Elba havia sido comprado com um cheque emitido por um amigo do além. Dados sigilosos vazados por integrantes da Lava Jato também foram decisivos para os rumos do processo político-eleitoral de 2018.

É evidente que o jornalista não pode grampear conversas alheias, não pode invadir sistemas, não pode pagar por informação. Mas nada nos impede de receber documentos obtidos de maneira irregular. O jornalismo também pressupõe o exercício de espírito crítico, capacidade de avaliação do que merece ou não ser publicado (sim, cito de maneira indireta o lema do New York Times).

Mas esta análise não pode levar em conta preferências político-partidárias do repórter, este não pode raciocinar como militante ou simpatizante de A ou de B. Tem a obrigação profissional de revelar quaisquer irregularidades que fique sabendo e o direito constitucional de não revelar suas fontes.

(Costumo dizer em mesa de bar que madre Teresa de Calcutá, pessoa boníssima, canonizada pelo papa Francisco, deve ter sido uma péssima fonte. Era tão piedosa que não deveria falar mal de ninguém. E é provável que o gângster Al Capone tenha abastecido jornalistas com ótimas informações — afinal, ele conhecia os podres de todo mundo, inclusive de políticos, da polícia e do Judiciário.)

Não vale, portanto, culpar o carteiro pelo teor da carta; como pregou Belchior: "Por favor, não saque a arma no saloon/ Eu sou apenas o cantor". Jornalista não pode escolher notícia, nem pode ser punido por cumprir sua obrigação de publicar informações corretas.