Viradouro: apito contra a mesmice

Os componentes que abriram o desfile agiram como atores dos revolucionários grupos de teatro Oficina, Opinião ou Arena que invadissem o palco do sofisticado e competentíssimo Teatro Brasileiro de Comédia. Não entraram em cena para brigar com os talentosos medalhões, todos admiráveis, apenas para lembrar ser preciso manter e renovar a chama original da festa.

Por Fernando Molica

Mestre Ciça à frente da Viradouro, escola que o homenageou

Estrelada pela homenageado, Mestre Ciça, a comissão de frente da Viradouro derrubou um modelo que, de tão competente, sincronizado e ensaiado, ficara previsível mesmo em suas infinitas surpresas. Como diria Rita Lee, enredo da Mocidade, a escola de Niterói arrombou a festa.

Foi como se, antes de chegar ao Sambódromo, a Viradouro tivesse passado pelo bairro vizinho do Estácio, tomado algumas cervejas, lições e passes para, na Avenida, gritar e provar: "Deixa falar, eu sou o samba".

Os componentes que abriram o desfile agiram como se atores dos revolucionários grupos de teatro Oficina, Opinião ou Arena invadissem o palco do sofisticado Teatro Brasileiro de Comédia. Não entraram em cena para brigar com os talentosos medalhões, apenas para lembrar ser preciso manter e renovar a chama original da festa.

A Viradouro emulou a também vermelha e branca São Carlos/Estácio para falar do samba de sambar criado ali pertinho e consagrado na Praça Onze, onde fica o terreirão da Sapucaí. Como Paulinho da Viola em seu "Bebadosamba", a escola de Niterói chamou por Ismael Silva, Bide, Bicho Novo, Heitor dos Prazeres, Dominguinhos do Estácio, Luiz Melodia, Gonzaguinha. Num boteco do Largo do Estácio, Aldir Blanc, entre um copo de cerveja e um conhaque, abençoava, olhos cheios d'água, a reunião.

De lá, eles embarcaram no trenzinho do caipira que levou a Estácio ao título de 1992; no caminho, passaram na estação Nilópolis para pegar os antigos e ilustres passageiros Selminha e Claudinho.

O carnavalesco Tarcísio Zanon e o enredista João Gustavo Melo não fizeram um manifesto contra o atual modelo das escolas de samba, nem criticaram o formato high tech das comissões de frente. Apenas lembraram que o samba está no princípio — e no meio, no fim e no recomeço.

Um samba que, trazido da Bahia, por aqui ganhou outros jeitos e formatos, separou águas e terras, o sol das estrelas, mudou os tempos; de uma barrica fez uma cuíca, de outra, um surdo de marcação. E, bum bum paticumbum prugurundum, Ismael viu que era bom.

Foi nesta fonte que a Viradouro bebeu para homenagear Ciça. Fez um desfile brilhante com um enredo que parecia difícil de ser realizado, dada a dificuldade de traduzir em alegorias e fantasias o trabalho de um mestre do ritmo. A grande sacada foi ir além do homenageado, cria do Estácio, onde vive até hoje.

O enredo fez de Ciça a personificação dos que vieram antes, dos que estão por aqui e dos que virão. A Viradouro poderia colocar um bailarino ou ator para representá-lo na comissão de frente, alguém que imitasse seus gestos, torná-los mais enfáticos.

Mas a escola foi mais ousada. Ao colocá-lo na frente, em carne e ossos (o apelido dele é Caveira), a Viradouro optou pelo Ciça como ele é — e o cara fez uma perfomance inesquecível, correu, regeu a plateia, sambou, mostrou ser mestre também com os pés. Ciça provou ser melhor que uma representação dele mesmo.

É comum que, de tempos em tempos, um desfile sirva de alerta para outras escolas, rompa com uma tendência de mesmice. É natural que experiências bem-sucedidas sejam replicadas, mas há sempre um momento de esgotamento, e alguém tem que, nessa hora, apitar. Foi o que a Viradouro fez. Simples, criativa, com os pés no chão, sem qualquer efeito especial, sua comissão de frente apitou e deu o tom do desfile, propôs uma nova afinação. O nosso samba, minha gente, é isso aí.