Lula, o homem do sistema
Ao conquistar o tetra eleitoral, o petismo deixou de representar a novidade, até mesmo conquistas sociais levadas para a sociedade, como políticas sociais inclusivas e melhoria na renda foram incorporadas ao dia a dia. Todo mundo queria mais.
A pesquisa da Quaest mostra que não vai ser simples para o PT recuperar o rótulo de antissistema, tão desejado pelo presidente do partido, Edinho Silva. Nos últimos anos, não apenas no Brasil, a extrema direita conseguiu pegar para si a marca da revolta e do incorformismo, características que vinham sendo quase monopolizadas pela esquerda.
É consenso classificar a direita de conservadora e a esquerda de progressista, mas essa conceituação é frágil, derivada de posições ideológicas que nem sempre fazem sentido na vida real, no cotidiano das pessoas.
Quem votou no Lula em 2002 optou pela mudança; apesar da moderação, de ter aparado barba e ideias mais radicais, o petista representava uma virada, era contra tudo que estava lá. Quatro anos depois, a maioria dos eleitores aprovou a experiência e votou para mantê-la — tratou de conservar o que havia. Esse mesmo voto de manutenção de uma realidade seria confirmado nas duas eleições posteriores.
Ao conquistar o tetra eleitoral, o petismo deixou de representar a novidade, até mesmo conquistas sociais levadas para a sociedade, como políticas sociais inclusivas e melhoria na renda foram incorporadas ao dia a dia. Todo mundo queria mais.
A resposta, porém, foi trágica: recessão no segundo governo Dilma Rousseff, as denúncias de corrupção, a ascensão de uma direita raivosa, que, com as redes sociais, percebeu que tinha o direito de remar contra a maré. Livres da fome, muitos brasileiros não se conformaram com a vida de classe média baixa — o céu é sempre o limite.
Por mais paradoxal que possa aparecer, coube a direita canalizar a revolta dos que passaram a buscar saídas individuais, que se cansaram de propostas coletivas e redentoras. Estas passaram a ser associadas à corrupção, à incompetência dos que, incapazes de enriquecer por seus próprios méritos, trataram de lesar o Estado. A Teologia da Prosperidade jogou a da Libertação para escanteio: era cada um por si.
Lula ganhou, por pouco, em 2022 graças, principalmente à sucessão de erros de Jair Bolsonaro. Diante do caos na condução da pandemia e do radicalismo tolerado e incentivado pelo presidente, a maioria preferiu botar o retrato do velho outra vez no mesmo lugar.
O resultado da eleição foi, principalmente, a vitória de uma expectativa conservadora, do retorno de alguém que pudesse botar alguma ordem na casa, que parasse de dar cloroquina até para as emas do Alvorada.
Ao anunciar a aposentadoria do Lulinha Paz e Amor, o presidente tenta animar a envelhecida militância, tenha reincorporar o espírito de mudança. Mas não é fácil. Tantos anos de poder fizeram com que boa parte da população passasse a ver no PT a marca de um sistema impermeável a mudanças, uma barafunda que inclui no mesmo pacote a estrelinha vermelha, a Justiça, a imprensa, a Globo, o que for.
O processo não é novo; com as devidas proporções, o nazismo e o fascismo também foram favorecidos pelo cansaço com os poderes. A pesquisa Quaest é clara ao mostrar dificuldades de Lula com jovens, com eleitores que estudaram até o ensino médio, com integrantes de famílias de renda entre dois e cinco salários mínimos.
A carteira assinada tão cortejada e desejada por gerações anteriores virou símbolo da imobiidade e do conformismo. Há uma aprovação, detectada por outras pesquisas, a programas como Bolsa Família, Farmácia Popular, Pé-de-Meia. Quase todo mundo aplaude o fim do desconto de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil. As medidas são legais, mas acabam identificadas com a lógica do sistema que muda para conservar.
