A doença infantil do semnoçãozismo
Nos últimos dias, o país tem sido palco de sucessivas manifestações do que também se poderia chamar de epidemia de semnoçãozismo, espécie de doença infantil cujo principal sintoma é a resistência em perceber limites entre o público e o privado.
Mais do que embriagar, o poder parece transformar muitos de seus detentores em pessoas incapazes de perceberem uma espécie de dependência química que as faz não perceberem o tamanho de seus porres.
Como bebuns de festa de firma, desafiam o óbvio e ainda querem fazer um quatro para mostrar que estão sóbrias (só bêbados acreditam que o ato de ficar apoiado em apenas um pé enquanto dobra o joelho sobre outra perna serve como prova de comedimento etílico).
Nos últimos dias, o país tem sido palco de sucessivas manifestações do que também se poderia chamar de epidemia de semnoçãozismo, espécie de doença infantil cujo principal sintoma é a resistência em perceber limites que separam o público do privado.
Ao usarem britadeiras retóricas para furarem o teto salarial e aprovarem vencimentos para funcionários do Congresso que podem chegar a R$ 77 mil, deputados e senadores demonstraram uma absurda desconexão com o país.
Pior: em meio a uma discussão importante, sobre o fim da jornada de trabalho de seis dias por um de folga, inventaram a escala três por um. O disparate foi tamanho que, ontem, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, mandou acabar com o que chamou de "Império dos penduricalhos".
Mas anteontem, no próprio STF, dois colegas de Dino, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, trataram de lavar togas em público, e fizeram uma defesa pungente daquilo que o professor de direito e articulista Conrado Hubner Mendes chama de "magistocracia", em linhas gerais, o direito de juízes fazerem o que bem entendem sem prestar a contas a ninguém.
A possibilidade de adoção de um Código de Ética no STF, proposto pelo presidente da corte, Edson Fachin, foi vista por esses dois colegas como algo absurdo. Moraes criticou o que classificou de "demonização de palestras" como se fosse razoável que integrantes do tribunal recebam uma grana pesada para participar de eventos muitas vezes organizados ou patrocinados por empresas ou entidades que têm processos no próprio STF.
Ele ressaltou as limitações impostas aos ministros que, além de palestras, só podem dar aulas. Afirmou que, no limite, ministros seriam impedidos de julgar processos de bancos dos quais são acionistas. A ideia é boa, e não chega a ser original. Muitos jornalistas que cobrem economia e optam por investir na bolsa o fazem via fundos de investimentos, sequer sabem que ações serão compradas em seu nome. Isto, para não serem eventualmente acusados de plantarem notícias para colherem lucros.
Toffoli ressaltou que não é bem assim, que juízes podem ter empresas, ainda que sejam proibidos de dirigi-las. Frisou que alguns são fazendeiros.
(Nada impede que um magistrado vire produtor rural e vá, por exemplo, plantar batatas, mas, neste casoo, melhor seria ter uma dedicação integral à vida no campo. Não custa lembrar: quem busca ser juiz sabe das limitações e das vantagens inerentes à carreira.)
O caso Master é outro que revela como o poder é capaz de afetar o próprio instinto de sobrevivência de alguns. Não dá para achar que autores de ordens para compras bilionárias de papéis de um banco claudicante escapariam ilesos do desabamento.
Vale sempre lembrar do imperador ou general romano que mantinha um escravizado à mão para que, nos momentos de glória, este lhe sussurrasse ao ouvido: "Memento mori", algo como lembra-te de que vai morrer. Manter viva a chama da humildade é melhor que tentar fazer o quatro e dar de cara no chão.