Os homens que vivem em círculos

À linearidade sonhada e proposta por ditaduras, Antônio Torres propõe uma ficção multifacetada, diversa, com personagens que nem sempre se expõem de maneira clara, que sequer saberiam viver de uma maneira menos limitada.

Por Fernando Molica

Antônio Torres situou o romance num país imaginário, que remete a Portugal

A nova e caprichada edição de "Os homens dos pés redondos" (Editora Record), de Antônio Torres, mostra que o romance, lançado em 1973, sobreviveu com méritos à ameaça do tempo.

Isso, apesar de ter sido escrito e ambientado em uma ditadura: não é incomum que, diante da opressão, escritores exagerem no tom da denúncia e, com isso, derrapem na construção da trama. O livro saiu ileso, e ainda cresceu.

O romance é passado em um país imaginário, Ibéria, mas tudo nos leva a Portugal, então isolado,  subjugado pelo salazarismo, que impunha saídas trágicas para seus cidadãos: pobreza, subdesenvolvimento, exílio, tortura, cadeia, morte e guerra contra a independência de nações africanas. Tudo sob a justificativa do lema "Deus, Pátria, Família", que, hoje, nos soa tão familiar. 

À linearidade sonhada e proposta por ditaduras, Torres propõe uma ficção multifacetada, diversa, com personagens que nem sempre se expõem de maneira clara, que sequer saberiam viver de uma maneira menos limitada.

Um está de tesoura no bolso para matar o chefe que encarna uma opressão, outro se delicia com um olhar crítico e estrangeiro sobre as incongruências de uma elite em sua propriedade rural.

Como se ele, Estrangeiro, de alguma forma, não fizesse parte do mesmo rebanho. Como se, a exemplo do dono da fazenda, também não tivesse prazer ao tirar as botas para pisar na mesma bosta quente das vacas.

Os pés daqueles homens e daquelas mulheres que não vão a lugar algum são igualmente redondos e sujos. Procuram negar a imundície de seus corpos e consciências, os outros é que seriam assim (colaboradores, cúmplices e financiadores de ditaduras adoram proclamar inocência, que fizeram o que podiam para evitar o pior).

Romance de leitura exigente, "Os homens dos pés redondos" cita um ditador caricatural — El Rey —, que nunca aparece por inteiro, uma saída engenhosa de Torres, um dos nossos principais autores contemporâneos, membro da Academia Brasileira de Letras.

Mais do que mostrar o tirano, o importante era revelar os efeitos da tirania sobre as pessoas comuns, que andavam em círculos em um país pequeno, provinciano, que procurava amenizar sua insignificância com a tentativa de manutenção do delírio imperial e colonialista. Buscava na grandeza da África uma compensação para sua própria limitação, seu diminuto tamanho.

Os personagens rolam pelo livro sem saídas, sem alternativas, batem nas fronteiras geográficas e pessoais, não avançam, não tiram o pé do esterco, por mais refinados ou vingativos que procurem demonstrar que são. Arrotam planos, não fazem isso nem aquilo, afundam-se em suas frustações, desordens, perversões — como no poema de Manuel Bandeira, só veem o beco.