O calcanhar de Aquiles de Lula

O problema é que há muito tempo o problema ultrapassou a esfera da racionalidade e de busca de soluções institucionais - não deve existir um brasileiro sequer que não tenha medo de ser assaltado ali na esquina ou de virar alvo de um tiro disparado a esmo.

Por Fernando Molica

Violência vira problema para Lula na eleição

O enfrentamento à violência se transformou numa espécie de desafio para o governo federal, que arrisca-se a ser devorado por sua incapacidade de decifrar um enigma que, em tese, nem lhe deveria ser apresentado de forma tão direta, já que o combate à criminalidade é dever, principalmente, dos estados. 

O problema é que há muito tempo o problema ultrapassou a esfera da racionalidade e de busca de soluções institucionais — não deve existir um brasileiro sequer que não tenha medo de ser assaltado ali na esquina ou de virar alvo de um tiro disparado a esmo.

Nas últimas décadas, alguns presidentes e governadores de esquerda conseguiram vitórias importantes na economia, geração de empregos, educação, saúde, produção cultural.

Mas, assim como os de direita, fracassaram no combate à violência urbana. Houve conquistas pontuais, reduções de índices aqui e ali, mas, no geral, ninguém pode dizer que conseguiu ao menos equacionar a situação.

Neste ponto, porém, a direita leva uma grande vantagem sobre a esquerda ao insistir no óbvio e improdutivo discurso do combate sem tréguas à marginalidade, no bandido bom é bandido morto, na lenda de que, sob sua administração, meliantes vão ter que se mudar, na história de que direitos humanos são apenas para humanos direitos.

Há quantas eleições você, eleitor, ouve variações das mesmas frases? Não resolvem nada, mas, pelo menos, servem de consolo — sabe aquela história do jogador que não faz gol, mas se esforça muito em campo? Pois.

As soluções apresentadas por quase todos os políticos de viés conservador são bem parecidas e têm um ponto comum com as propostas da esquerda: nenhuma delas deu certo.

Se autorizar violência policial diminuísse criminalidade, o Brasil seria uma espécie de Suíça tropical. Pior: polícia violenta é sempre sinal de polícia corrupta, ao autorizar que agentes do Estado cometam homicídios, a sociedade permite que eles cometam quaisquer outros crimes.

Mas, no desespero, o discurso do pega-mata-come é mais bem recebido do que uma aparente ausência de propostas concretas.

É óbvio que má distribuição de renda e de oportunidades, racismo, péssimas condições de vida e de moradia são elementos decisivos para que jovens abram mão da vida institucional e aceitem se arriscar na vida de crimes (vida de bandido é arriscada, afinal). A esquerda costuma ser boa no diagnóstico desse tipo de problema, mas demonstra incapacidade de apresentar saídas de curto prazo.

Dificuldades políticas também complicam o quadro: a corrupção policial costuma ser apenas a ponta de um sistema complexo de parcerias, de engrenagens que alcançam palácios legislativos, judiciários e executivos.

Não é fácil mexer nessa teia, ainda que isso, hoje, seja fundamental até para garantia de existência de um Estado de Direito ameaçado pelo crescimento de organizações criminosas.

Não dá, no combate à violência, inventar soluções radicais e ilusórias como congelamento de preços nem alternativas criativas e ousadas como a que gerou o Plano Real. Mas também não é possível achar que haverá algum sucesso sem que sejam enfrentados esquemas pesados que envolvem poder político e lavagem de dinheiro em grande escala.

Na dúvida, a esquerda mostra paralisia no enfrentamento do problema, enquanto a direita repete a lógica de prender os suspeitos de sempre.