O samba é laico

Ao justificar o palco gospel no Réveillon, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), forçou a barra ao dizer que o povo do axé poderia se dirigir aos locais onde havia apresentações de samba. Foi outro palpite infeliz.

Por Fernando Molica

Fogos no Réveillon de Copacabana

A discussão sobre o palco dedicado à música gospel no Réveillon de Copacabana remete aos tempos em que pontos de cultos umbandistas ultrapassavam as paredes dos terreiros e ganhavam as chamadas paradas de sucesso. Havia também o oposto: canções que acabavam adotadas nas giras.

Há algumas décadas, época em que a presença evangélica era menor, praticamente limitada a denominações protestantes tradicionais, as barreiras entre o profano e o sagrado — especialmente em relação a religiões de matrizes africanas — eram bem menores.

Os católicos mais tradicionais não gostavam, o arcebispo reclamava, mas a macumba corria solta pelas ruas, emissoras de rádio e, mesmo, de TV. O sincretismo religioso facilitava a tolerância: muita gente se dizia como católica, apostólica — e macumbeira.

A ialorixá Cacilda de Assis, que incorporava o exu Seu Sete da Lira, causou furor ao aparecer nos programas de Flávio Cavalcanti e Chacrinha, era compositora de sucesso e chegou a fundar um bloco de carnaval, p Bloco do Lira.

Regravada por Zeca Pagodinho, "Só o ôme", de Edenal Rodrigues, foi lançada em disco em 1969 por Noriel Vilela, e fez um baita sucesso, foram vendidas mais de 200 mil cópias de seu disco.

Mais ou menos na mesma época, Oswaldo Nunes lançou "Segura este samba Ogunhê", que trazia no título uma saudação a Ogum. Gravada em 1949 e grande sucesso de Blecaute, a música "General da banda" é outra louvação ao mesmo orixá e tem, entre os autores, Tancredo da Silva Pinto, o Tata Tancredo, o pai-de-santo que levou o culto a Iemanjá para as praias cariocas nas noites de 31 de dezembro. Os outros compositores são Sátiro de Melo e José Alcides.

Aquela simpática canção que manda o Zé tomar cuidado com o balanço da canoa é um ponto para Zé Pilintra, guia ligado ao povo da malandragem. O repertório de Clara Nunes é rechado de canções nascidas em terreiros, como "Ê baiana". Sucesso de Martinho da Vila, "Festa de umbanda" ("O sino da Igrejinha faz belém blem blam") foi, está na cara, na letra e no ritmo, criada para ser usada em rituais.

Os integrantes do fantástico grupo Os Tincoãs também faziam questão de revelar a beleza das canções que louvavam deuses trazidos da África. São músicas que podem e devem ser ouvidas por qualquer um, não é preciso crer nos orixás para cultar gravações tão bonitas e emocionantes.

Ao justificar o palco gospel no Réveillon, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), forçou a barra ao dizer que o povo do axé poderia se dirigir aos locais onde havia apresentações de samba. Foi outro palpite infeliz: por mais pontos de contato que tenha com a tradição religiosa de origem africana, o samba é um estilo laico; há sambistas umbandistas, candomblecistas, católicos, evangélicos, ateus.

O samba, diferentemente do gospel, não é música de culto, ainda que muitas canções do gênero, especialmente sambas de enredo, tenham referências religiosas explícitas. Falar que o samba remete necessariamente a essas religiões seria amarrar o jazz apenas à tradição cristã negra norte-americana. Isso sem falar que boa parte música ocidental é, de alguma forma, derivada do catolicismo. 

A mistura entre religião e política não é de hoje, ainda que o tema tenha ficado mais presente a partir do  crescimento dos evangélicos. O melhor que a prefeitura pode fazer é tratar de cuidar da cidade, é para isso que existe prefeito. Cada um que se entenda com seu deus e trate de louvá-lo do jeito que bem entender, sem essa história de criar púlpitos musicais com dinheiro público.