Mestre, Beraba redefiniu parâmetros no jornalismo
Embora não tivesse feito mestrado ou doutorado, Beraba exercia seu trabalho com um rigor compatível com as mais exigentes normas acadêmicas, uma característica que se encaixaria com perfeição com o projeto implantado, a partir dos anos 1980, pela Folha de S.Paulo.
Entre as muitas qualidades do amigo e jornalista Marcelo Beraba, de 74 anos, que morreu na última segunda-feira, estava sua extrema capacidade de apontar os caminhos de uma reportagem.
Atuava como um experiente engenheiro que indicava o veio do ouro: "É por aqui, mestre", repetiu centenas ou milhares de vezes, usando o vocativo que nós, seus colegas, incorporamos ao seu nome — Mestre Beraba.
Nós, jornalistas, costumamos lidar com uma quantidade quase infinita de informações, muitas vezes incompletas, contraditórias e, mesmo, falsas; dados que surgem das mais variadas fontes, nem sempre confiáveis.
Não é fácil, num curto período de tempo, checar o que nos foi passado ou o que apuramos, verificar tais informações, hierarquizá-las e contextualizá-las, fazer com que tenham sentido para o leitor, ouvinte, espectador.
Chavão presente nos antigos livros de alfabetização, "Vovô viu a uva" carrega infinitas possibilidades: avô de quem? Viu com os próprios olhos ou pela internet? Mas tal idoso tem acuidade visual para ver algo? Que tipo de uva? Em terra de quem está plantada? A uva está pronta para ser colhida? Tal vinhedo tem relevância econômica e social? Será que tal uva não foi produzida por aquelas vinícolas acusadas de explorar mão de obra escrava? E, fundamental, isso é mesmo importante?
O exemplo acima, banal, mostra o tamanho da complexidade de um trabalho, ainda mais num país em que fatos se sucedem e se atropelam numa velocidade e numa intensidade impressionantes. Dos últimos seis presidentes da República, dois perderam o cargo por impeachment, três estiveram presos e um está à beira de ser condenado e levado para a cadeia.
Não é fácil apurar e relatar com objetividade, critério e rigor, impedir que simpatias ou ódios contaminem o que será publicado. Uma postura profissional ainda mais difícil de ser exercida num mundo em que muitos, a maioria, talvez, só querem saber dos fatos que lhes interessam, que lhes são despejados pelos algoritmos amestrados das redes sociais.
Integrante de uma geração que ingressou na universidade e na vida profissional ainda sob a ditadura, Beraba teve, no início da carreira, uma atuação política e corporativa (foi presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio), mas nunca deixou que suas preferências desvirtuassem seu trabalho como repórter e chefe.
Era até ainda mais rigoroso quando se deparava com relatos que pudessem favorecer um viés político mais compatível com sua visão de mundo. Essa postura foi decisiva para evitar desvios em momentos tão polarizados e impactantes da vida nacional.
Embora não tenha feito mestrado ou doutorado, Beraba exercia seu trabalho com um rigor compatível com as mais exigentes normas acadêmicas, uma característica que se encaixaria com perfeição com o projeto implantado, a partir dos anos 1980, pela Folha de S.Paulo e que se tornaria fundamental no jornalismo brasileiro. Tinha uma imensa capacidade de organização, estruturou, ao longo de mais de 50 anos de carreira, grandes reportagens, cadernos e edições especiais.
Tive a sorte e o privilégio de ter participado desse processo, que estabeleceu parâmetros até hoje fundamentais no exercício do jornalismo. Fui chefiado pelo Beraba em praticamente todos os dez anos em que trabalhei na sucursal Rio da Folha; por um curto período, convivemos na TV Globo.
Várias vezes fui chamado por ele para tratar de alguma reportagem; em muitas ocasiões, entrei na conversa meio perdido e dela saí com uma espécie de mapa da mina, e com a convicção de que ainda precisava apurar muito mais.
Generoso, tricolor, portelense e bem-humorado, Beraba não mirava apenas a própria carreira. Diante do assassinato de Tim Lopes, em 2002, conversou com o colega Rosental Calmon Alves e começou a articular a criação do que se tornaria a Abraji, Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo.
Em e-mail enviado para uns 40 jornalistas, tratou de nos convidar para uma reunião que serviria como marco zero de uma entidade tão importante no estabelecimento de parâmetros de segurança e de apuração.
Uma generosidade que se manifestava também nos longos e deliciosos almoços no apartamento na Lagoa em que morava com Elvira Lobato — uma repórter brilhante (Beraba jogava com a 10; ela, artilheira, veste a 9). Tardes que viravam noites embaladas por conversas, discussões, brincadeiras, discordâncias, muita cerveja, vinho e cachaça.
Desde março que seus amigos mais próximos acompanhávamos a descoberta da doença, a cirurgia, o tratamento. Ele reagiu a tudo com placidez e perseverança; tratou do problema grave com a mesma objetividade com que ele, um ex-seminarista que virou ateu, analisava desafios profissionais.
Não teve tempo de concluir o livro sobre jornalismo que preparava com tanto carinho, mas formou gerações, deixou — com perdão do lugar-comum — lições fundamentais de jornalismo e de vida. A bússola Beraba permanece conosco, colegas, amigos e, agora, órfãos.