Radicalização bolsonarista abre espaço para moderação lulista

O eleitor mais moderado é o cara que costuma decidir os rumos do pleito e que tende a rejeitar posturas mais radicais - a menos quando a realidade já se apresenta extremada.

Por Fernando Molica

Lula ganhou a chance de, mais uma vez, ser o mais moderado.

A briga em torno dos impostos, a ofensiva contra decisões do Congresso e a chantagem de Donald Trump estimulada por bolsonaristas deram ao Planalto a chance decisiva de avançar sobre o eleitor que, como o PSD, não é de esquerda, de direita, nem de centro.

Aquele sujeito que não gosta de políticos e que, na urna, digita números dependendo da conjuntura. É o cara que costuma decidir os rumos do pleito e que tende a rejeitar posturas mais radicais — a menos quando a realidade já se apresenta extremada e ele quer forçar um freio de arrumação.

Em 1994, embalado pela estabilidade prometida pelo real e pelo fim da insuportável inflação, esse eleitor cravou Fernando Henrique Cardoso e repetiu a escolha quatro anos depois. 

Em 2002, irritado com sinais de estagnação econômica, deu uma chance àquele sindicalista que aparara a barba e o discurso, passara a usar ternos bem cortados e prometia crescimento, paz e justiça social sob uma trilha sonora acalentadora, que em nada lembrava as bravatas e convocações da esquerda.

A partir do inicío do mandato de Lula, esse eleitor viu que o diabo não era tão vermelho quanto parecia, que ninguém invadira sua casa, que a poupança ficara em seu lugar, que a estabilidade de preços fora mantida e que, ora veja só, a fome diminuíra, pobres começavam a viajar de avião.

E tome de apertar o 13 nas três eleições seguintes, inclusive na 2014, mesmo com as derrapadas de Dilma Rousseff e as acusações de corrupção contra os governos petistas. Mas a bola já batia na trave: em 2018, baixou no eleitor o espírito do salvador da pátria que, em 1989, já havia levado Fernando Collor de Mello para o Planalto.

Jair Bolsonaro encarnou o contra-tudo-que-está-aí, uma espécie de curupira que olha pra frente com os pés voltados para trás, que adora brincar de pique-retrocesso. Mais uma vez, aquele eleitor que, como no poema de Cecília Meireles, não é isso nem aquilo, foi decisivo.

Irritado com a recessão, com a roubalheira estampada nos jornais e na TV, mandou às favas os escrúpulos de contenção e elegeu o cara que elogiava ditaduras e torturadores — até porque seu principal adversário, que liderava pesquisas até um mês antes da eleição, tinha sido preso por determinação do juiz que viraria auxiliar de curupira. Com campo livre, Bolsonaro subiu a rampa com os pés virados para o passado que tanto exaltava.

Na eleição seguinte, uma boa parte daquele eleitor moderado saiu do transe provocado pela cloroquina e, ainda sufocado pelo cheiro da morte estimulada pelo então presidente, deu uma nova chance ao velhinho barbudo que, desde então, procura escapar do presente de inspiração grega que recebeu das urnas: uma espécie de kinder ovo recheado de guerreiros pidões, que exigem mais e mais emendas para não azedarem um chocolate que já não era tão doce assim.

Acuado pelo Congresso, viciado em truques que não faziam o mesmo efeito de outrora, Lula derrapava em busca de um rumo. Lambuzados pelo melado que tanto comiam, deputados e senadores deram a senha para a recuperação presidencial ao derrotarem o governo no caso do IOF: pior nem foi o placar, mas o olé escancarado imposto ao time do Planalto e o piscar de olhos acintoso na direção de Tarcísio de Freitas, o governador de São Paulo que tenta dar cara moderada ao bolsonarismo, radical por princípio, meio e fim.

O governo reagiu, fez sua primeira boa ofensiva nas redes sociais e ainda contou com a ajuda de Trump — como o menino Super-Homem, o presidente norte-americano não sabe controlar a força, derruba paredes ao nela se apoiar.

Pressionado pela reação negativa às medidas da Casa Branca e pelo Supremo Tribunal Federal, o bolsonarismo reagiu atirando, fez questão de lembrar quem é, mesmo com o risco de aprofundar seu isolamento; o Centrão tem evitado até dar bom dia para os amiguinhos de camisa amarela. 

Ao partir pro tudo ou nada, Bolsonaro faz o jogo que mais sabe jogar, mas corre o risco de, mais uma vez, entregar a Lula o perfil de menos radical, de mais palatável — e, agora, mais patriota que o adversário que passou a depender de Trump.