Por: Fernando Molica

Banco Central recomenda: não coma, não trabalhe, não consuma

Reunião do Copom | Foto: Raphael Ribeiro/BCB

Você, que arrumou emprego ou comeu um churrasco recentemente, é um dos maiores culpados pela inflação. É o que diz o Copom, Comitê de Política Monetária, formado pelos diretores do Banco Central.

Ao justificarem mais um aumento da taxa de juros, eles disseram que a alta nos preços foi influenciada pelo "aumento da população ocupada, queda da taxa de desemprego e aumento da formalização de postos".

Sobrou também pro boi. Segundo o Copom, a estiagem também contribuiu para o aumento do preço da carne, já afetada pela redução da oferta que obedece ao ciclo da produção pecuária.

Quem mandou você pedir mais uma rodada de picanha? O resultado está aí. Como a inflação começou a costear o alambrado da meta para 2024, o BC aumentou o tamanho da cerca, mesmo que, com isso, impeça muita gente de chegar perto de um prato de feijão com arroz.

Não há na ata da última reunião do Copom nenhuma referência à necessidade de investimentos que evitem novos desastres climáticos como as secas. Primeiro, eles reclamam, veja só, do crescimento da economia — no terceiro trimestre, o PIB, Produto Interno Bruto, cresceu 0,9% em relação ao período anterior e acumula alta de 3,3% em 2024. Isso, para os caras, é muito ruim: "(...) persiste um cenário de atividade resiliente com dinamismo maior do que esperado, como evidenciado na divulgação do PIB do terceiro trimestre", escreveram.

Nenhuma palavra sobre o crescimento da indústria (3,5% neste ano), algo que, pela cartilha econômica clássica, deveria mitigar os efeitos do crescimento da demanda.

Depois, trataram do crescimento do emprego, reclamaram que "o mercado de trabalho (está) ainda mais dinâmico".  Espantaram-se com o "o ritmo de crescimento do consumo das famílias e da formação bruta de capital fixo" o que, afirmam,  "indica uma demanda interna crescendo em ritmo bastante intenso, apesar da política monetária contracionista".

Em outras e menos duras palavras, disseram mais ou menos o seguinte: a gente sobe os juros, aperta, e esses brasileiros irresponsáveis continuam arrumando trabalho, comendo carne e fazendo compras!

No fim da reunião, decidiram aplicar a receita de bolo, aumentar mais a taxa básica de juros, uma forma de tornar o crédito mais caro e, assim, desestimular o consumo. Ainda ameaçaram repetir a dose mais duas vezes caso o governo não corte gastos e a gente insista em comer bem, trabalhar e fazer compras. 

Mas eles fazem isso com muito carinho. Nada de falar em recessão, em freio na economia. Elegantes, usam oito vezes variações da palavra "desaceleração". Numa delas, justificam o aperto, como mãe que obriga o filho a trocar filé por jiló: "(...) desacelerações são parte essencial do processo de suavização e reequilíbrio da economia". Fofos, não?

Quem tem mais de 45 anos lembra do inferno que é conviver com inflação alta. Em 1993, antes do Plano Real, o índice fechou em 2.500%. Em março de 1990, o aumento de preços chegou a 82,39% — num mês! Tínhamos que correr ao supermercado assim que o salário batia na conta, o dinheiro se esfarelava em nossas mãos.

Impedir que o dragão inflacionário volte é um dever da sociedade, do governo e do Banco Central. Mas essa luta não pode ser feita em detrimento da população, principalmente dos mais pobres.

O Copom que tanto pede ajuste fiscal — mais controle de gastos por parte da administração pública — não cita os subsídios e incentivos fiscais concedidos aos mais ricos, um dinheirão (R$ 543 bilhões, mais do dobro que a União entrega para o SUS) que deixa de entrar nos cofres públicos. É muito fácil cortar o bife e o emprego dos outros — a carne dos dirigentes do BC está garantida, e não tem nada de fraca.