Por: Fernando Molica

Em livros, mistérios futuros e pretéritos

Inteligência artificial | Foto: Pixabay

Um romance e um livro de contos tratam de dúvidas presentes ao tatear o futuro e revolver o passado — esses dois universos incertos, permeados de fantasias. 'Movimento 78' (Companhia das Letras) de Flávio Izhaki cita momentos decisivos da vida de dois integrantes da família Kubo; um deles envolvido numa disputa por eleitores — seu adversário é um mecanismo de Inteligência Artifical.

Na batalha, a IA faz um discurso que nos soa bem familiar: no lugar da política e de seus inevitáveis e necessários conflitos de interesses, recicla o tecnicismo, exalta sua própria competência e capacidade de levar em conta infinitas variáveis ao decidir o que fazer para melhorar a vida da sociedade, como se esta fosse algo único, sem contradições.

O pai do personagem também se encontrara diante de outro impasse ao ser praticamente obrigado por sua empresa a se submeter a um tratamento experimental para curar uma doença que sequer se manifestara. Um outro debate entre o humano e um saber que se insinua como uma espécie de ocultismo high tech e, assim, superior aos mortais.

'A última noite de José Wilker' (Caos & Letras), de André Balaio, conta histórias meio estranhas vividas por pessoas assim um tanto quanto esquisitas, como qualquer um de nós: um rapaz que se viu oprimido por oponente como ele gostaria de ser; um noivo que, em Recife, encomenda o terno de casamento a um alfaiate que diz ter jogado no time do Botafogo campeão de 1989. O mais longo é sobre um professor que, de tão fascinado pelo ator José Wilker, aproveita uma viagem ao Rio para refazer seus últimos passos e goles.

Ao tentar reconstituir os derradeiros momentos de vida do ator, morto em 2014, o personagem parece procurar uma própria história, como se reeditasse seus muitos fantasmas de estimação. Wilker, morto, vira assim espelho que reflete imagens distorcidas, como aqueles que havia em circos.

Ao focar no ator, o protagonista encara suas próprias frustrações, percebe que tal espelho pouco lhe serve. Wilker morrera, o restaurante em que fizera sua última ceia foi fechado, o mar em que o ator se banhara era outro, era hora de fazer seus caminhos, simples e belos como uma cambalhota dada por um garoto na praia. Como perguntou Aldir Blanc, mudou Vila Isabel (no caso, Ipanema), ou mudei eu? Os dois mudaram, o passado, hoje, já é outro.

 

Macaque in the trees
Inteligência artificial assombra cada vez mais o futuro e visa a possibilidade de modificar o passado