BRASILIANAS | Luto: Brasília perde Maria Elisa Costa e a sua construção de uma consciência urbana

Arquiteta, filha do autor do traçado urbano de Brasília, reforçou diretrizes que orientam intervenções urbanas na capital -- Celilna Leão decretou luto oficial de três dias, em memória da arquiteta

Por por William França

O autor do Plano Piloto de Brasília, Lúcio Costa, e sua filha Maria Elisa Costa

Maria Elisa Costa, arquiteta e urbanista, morreu na tarde da última quinta-feira (25 de agosto) aos 91 anos em Brasília, fato que levou o Governo do Distrito Federal a decretar luto oficial de três dias.

Filha de Lucio Costa, autor do projeto ganhador do Plano Piloto de Brasília, ela acompanhou a formação da capital desde os primeiros anos e dedicou a vida à defesa do conjunto urbanístico que moldou a identidade de Brasília.

A governadora Celina Leão (PP) afirmou que Maria Elisa “deixa um enorme legado para a preservação de nossa identidade arquitetônica e a luta pela preservação de Brasília como patrimônio cultural da humanidade”, destacando a relevância de sua atuação para a cidade.

Instagram - Família comunicou o falecimento de Maria Elisa pelas redes sociais

Formada em 1958 pela então Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Elisa integrou a divisão de urbanismo da Novacap em fase decisiva da implantação do Plano Piloto.

Acompanhou estudos, ajustes e procedimentos que orientaram a consolidação da nova capital, participando de debates técnicos que ajudaram a definir parâmetros de ocupação e uso do território.

Em entrevistas ao longo da vida, ela costumava lembrar que Brasília exigia “um olhar atento para não perder o sentido do desenho original”, referência que guiou sua atuação em órgãos públicos e entidades dedicadas ao patrimônio.

Instagram/Márcia Zarur - Maria Elisa defendia que o desenho urbano da capital era "uma obra viva, que precisa ser compreendida antes de ser transformada"

Nas décadas seguintes, Maria Elisa integrou conselhos responsáveis por avaliar intervenções em áreas tombadas, contribuindo para a formulação de critérios que ainda hoje balizam análises de impacto sobre superquadras, eixos viários e espaços públicos.

Entre 2003 e 2004, presidiu o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), período em que reforçou a leitura de Brasília como referência internacional de planejamento modernista. Sua gestão ampliou ações voltadas à preservação do conjunto urbanístico e fortaleceu instrumentos de proteção do patrimônio.

A arquiteta também dirigiu a Associação Casa de Lucio Costa, instituição dedicada à memória do projeto original. A entidade se tornou espaço de debates sobre o papel de Brasília na arquitetura brasileira e sobre a importância de manter o Plano Piloto como referência central nas decisões sobre ocupação.

Em diferentes ocasiões, Maria Elisa defendia que o desenho urbano da capital era “uma obra viva, que precisa ser compreendida antes de ser transformada”, frase que sintetiza sua visão sobre a relação entre preservação e desenvolvimento.

Sua atuação consolidou bases técnicas que influenciam políticas de preservação adotadas pelo Distrito Federal e ajudou a manter o traçado reconhecido internacionalmente como símbolo do urbanismo modernista.