BRASILIANAS | Luto: Brasília perde Maria Elisa Costa e a sua construção de uma consciência urbana
Arquiteta, filha do autor do traçado urbano de Brasília, reforçou diretrizes que orientam intervenções urbanas na capital -- Celilna Leão decretou luto oficial de três dias, em memória da arquiteta
Maria Elisa Costa, arquiteta e urbanista, morreu na tarde da última quinta-feira (25 de agosto) aos 91 anos em Brasília, fato que levou o Governo do Distrito Federal a decretar luto oficial de três dias.
Filha de Lucio Costa, autor do projeto ganhador do Plano Piloto de Brasília, ela acompanhou a formação da capital desde os primeiros anos e dedicou a vida à defesa do conjunto urbanístico que moldou a identidade de Brasília.
A governadora Celina Leão (PP) afirmou que Maria Elisa “deixa um enorme legado para a preservação de nossa identidade arquitetônica e a luta pela preservação de Brasília como patrimônio cultural da humanidade”, destacando a relevância de sua atuação para a cidade.
Formada em 1958 pela então Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Elisa integrou a divisão de urbanismo da Novacap em fase decisiva da implantação do Plano Piloto.
Acompanhou estudos, ajustes e procedimentos que orientaram a consolidação da nova capital, participando de debates técnicos que ajudaram a definir parâmetros de ocupação e uso do território.
Em entrevistas ao longo da vida, ela costumava lembrar que Brasília exigia “um olhar atento para não perder o sentido do desenho original”, referência que guiou sua atuação em órgãos públicos e entidades dedicadas ao patrimônio.
Nas décadas seguintes, Maria Elisa integrou conselhos responsáveis por avaliar intervenções em áreas tombadas, contribuindo para a formulação de critérios que ainda hoje balizam análises de impacto sobre superquadras, eixos viários e espaços públicos.
Entre 2003 e 2004, presidiu o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), período em que reforçou a leitura de Brasília como referência internacional de planejamento modernista. Sua gestão ampliou ações voltadas à preservação do conjunto urbanístico e fortaleceu instrumentos de proteção do patrimônio.
A arquiteta também dirigiu a Associação Casa de Lucio Costa, instituição dedicada à memória do projeto original. A entidade se tornou espaço de debates sobre o papel de Brasília na arquitetura brasileira e sobre a importância de manter o Plano Piloto como referência central nas decisões sobre ocupação.
Em diferentes ocasiões, Maria Elisa defendia que o desenho urbano da capital era “uma obra viva, que precisa ser compreendida antes de ser transformada”, frase que sintetiza sua visão sobre a relação entre preservação e desenvolvimento.
Sua atuação consolidou bases técnicas que influenciam políticas de preservação adotadas pelo Distrito Federal e ajudou a manter o traçado reconhecido internacionalmente como símbolo do urbanismo modernista.