BRASILIANAS | Festival de Cinema segue (ainda) sem verba, enquanto projetos do Metrópoles acumulam R$ 26,8 milhões

Politicamente, o cancelamento foi revertido, mas a promessa de liberação de recursos não se concretizou -- Repasses milionários a eventos privados seguem sob investigação do Ministério Público -- Mostras e desfiles ligados ao Metrópoles ocupam espaço tombado, recebem valores elevados e não apresentam balanço de visitação

Por por William França

Apesar do anúncio do repasse prometido pelo GDF, nada foi creditado

A 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro permanecia até o final da tarde de ontem (13 de agosto) sem receber qualquer repasse do Governo do Distrito Federal, mesmo após a governadora Celina Leão (PP) anunciar publicamente, nas redes sociais dela, no último dia 10, que havia determinado à Secretaria de Economia "a liberação imediata dos recursos necessários" para garantir a realização do evento.

A promessa foi feita horas depois de a Secretaria de Cultura confirmar o cancelamento da edição de 2026 por falta de verba, atrasos nos pagamentos e salários não recebidos por cerca de 50 profissionais desde março.

Até a tarde desta quinta-feira (13), porém, nenhum centavo havia entrado nas contas da organização - que mantém a avaliação de que o festival, previsto para ocorrer entre 11 e 19 de setembro, segue inviável sem o repasse de R$ 3 milhões previstos no contrato plurianual do GDF com a promotora, firmado para o triênio 2024–2026.

O impasse ocorre em meio a um cenário de forte contraste na política cultural do DF

Enquanto o festival — criado em 1965, reconhecido como patrimônio imaterial desde 2007 e considerado o mais antigo evento cinematográfico do país — não recebeu os valores previstos, projetos privados, com os ligados ao grupo Metrópoles, do ex-senador Luiz Estevão, acumulam repasses expressivos por meio de termos de fomento custeados com emendas parlamentares.

Nos últimos dois anos, o Metrópoles (e seus braços empresariais de produção, que são vários) recebeu R$ 26,8 milhões da Secretaria de Turismo, distribuídos em 11 contratos voltados à realização de eventos culturais, de moda e de artes visuais.

Somente neste 2026, nove deputados distritais destinaram R$ 27,6 milhões em emendas ao Metrópoles Produções. O maior volume partiu de Joaquim Roriz Neto (PL), que indicou R$ 14,6 milhões.

Em seguida aparecem Daniel Donizet (MDB), com R$ 3,9 milhões; Martins Machado (Republicanos), com R$ 2,62 milhões; e Doutora Jane (Republicanos), com R$ 1,5 milhão. Outros parlamentares — Pepa, Roosevelt Vilela, Pastor Daniel de Castro, Iolando e Robério Negreiros — completam a lista, com valores entre R$ 1,3 milhão e R$ 500 mil.

Os repasses da Secretaria de Turismo ao Metrópoles são alvo de investigação do Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT), que apura ausência de licitação, compatibilidade dos custos com preços de mercado e o modelo de execução adotado, no qual a empresa firma a parceria, mas a realização prática pode envolver outras entidades.

O que este paradoxo expõe é um descompasso na política cultural do DF: enquanto o festival mais tradicional do país permanece sem verba mesmo após promessa oficial, eventos privados ligados a um mesmo grupo econômico seguem recebendo recursos milionários - com rapidez e sem licitação.

 

Internet - Foyer da Sala Villa Lobos do Teatro Nacional

Foyer do Teatro Nacional concentra eventos privados do Metrópoles, que somam milhões em repasses públicos - e sem dados de público divulgados

A sequência de eventos do Metrópoles realizados no foyer da Sala Villa-Lobos, no Teatro Nacional Claudio Santoro -- que pertence à Secretaria de Cultura do DF, a mesma que responde pelo Cine Brasília, onde acontece o Festival de Cinema --, evidencia a concentração de recursos públicos destinados a projetos privados ligados ao ex-senador Luiz Estevão.

Nos últimos dois anos, o espaço — tombado e ainda aguardando reformas estruturais — recebeu uma série de iniciativas contempladas com valores expressivos por meio de termos de fomento, custeados com emendas parlamentares -- via Secretaria de Turismo --, sem que tenha sequer feita a divulgação transparente sobre o público atendido.

A megaexposição “É Pau, É Pedra…”, dedicada ao escultor Sergio Camargo, recebeu R$ 5.799.896,83 por meio de inexigibilidade de chamamento público, no apagar das luzes de 2025.

A mostra reuniu cerca de 200 obras do artista, com curadoria de Marcello Dantas, e contou com patrocínio privado adicional. Apesar do valor investido, não existe balanço oficial do público total: o único número divulgado pela organização registra 2.500 alunos da rede pública em ações educativas organizadas pelo próprio Metrópoles.

Não há dados sobre visitantes espontâneos, fluxo diário, média de visitação ou impacto real da exposição — uma ausência de transparência incomum em projetos culturais financiados com recursos públicos.

Antes dela, o desfile "Metrópoles Catwalk" — também realizado no foyer — custou R$ 3.199.935,31 aos cofres públicos. Logo depois, a mostra coletiva "Constelações Contemporâneas" foi contemplada com R$ 4,1 milhões.

Os três eventos integram um conjunto de repasses que soma R$ 26,8 milhões em dois anos, distribuídos em 11 contratos sob investigação do Ministério Público, que apura a compatibilidade dos valores com preços de mercado, a ausência de licitação e o modelo de execução adotado.

Enquanto isso, outras iniciativas não conseguem recursos...

O contraste das atividades do Metrópoles com outras iniciativas culturais é significativo. A exposição internacional dedicada a Le Corbusier, realizada recentemente em Brasília, participou de processo licitatório e não conseguiu captar nem R$ 2 milhões.

Em suma: Quando o projeto não é do Metrópoles, o acesso aos recursos é mais lento, sujeito a disputas e contingenciamentos; quando é, os valores são liberados rapidamente e em volume elevado.

(Vale lembrar que o neto de Luiz Estevão, o empresário Luiz Estevão Neto, é o presidente do PP Jovem no DF - mesmo partido da governadora Celina Leão.)

Esse padrão se evidencia agora no caso do Festival de Brasília: mesmo após a governadora Celina Leão anunciar que havia determinado a liberação imediata da verba, o evento segue sem receber os recursos necessários para sua realização.