BRASILIANAS | Levantamentos mostram avanço das dívidas, alta inadimplência e terceira queda seguida no setor de serviços
Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor mostra alta anual mais intensa na capital -- O DF tem atrasos no pagamento de contas superior ao registrado no país -- Famílias pressionadas e serviços em retração moldam o quadro econômico do DF e acendem alerta
O Distrito Federal atravessa um momento de pressão simultânea sobre as famílias e sobre o setor de serviços: dois levantamentos mostram que o DF combina um avanço expressivo do endividamento, uma deterioração mais intensa da capacidade de pagamento e uma perda recente de ritmo em segmentos importantes da economia, ainda que sustentado por bases estruturais que permanecem positivas no acumulado do ano.
Os dados econômicos foram divulgados ontem (12 de agosto) em dois levantamentos: a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), e a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Segundo a PEIC, 79,9% das famílias do Distrito Federal estavam endividadas em julho, alta frente aos 79,7% de junho e aos 72,8% registrados no mesmo mês de 2025. Em números absolutos, são 844.359 famílias com algum tipo de dívida.
Embora o DF permaneça ligeiramente abaixo da média nacional — que atingiu 82,0% — o avanço anual na capital foi mais intenso: 7,1 pontos percentuais, contra 3,5 pontos percentuais no país.
A diferença entre DF e Brasil no indicador total é de 2,1 pontos percentuais, mas a trajetória recente evidencia maior pressão sobre o orçamento das famílias brasilienses, especialmente entre os grupos de menor renda.
Entre famílias com renda de até dez salários mínimos, o endividamento alcançou 85,8% no DF, acima dos 84,1% observados na média nacional. Já entre famílias com renda superior a esse patamar, a taxa local foi de 67,1%, inferior aos 72,0% registrados no país.
A composição reforça que o impacto do endividamento está mais concentrado nos segmentos mais sensíveis ao custo do crédito e às oscilações da renda disponível.
Inadimplência no DF cresce, enquanto no país está estável
A inadimplência, por sua vez, é o indicador que mais diferencia o cenário do Distrito Federal. Em julho, 51,2% das famílias da capital tinham contas em atraso, ante 50% em junho.
No Brasil, o índice ficou em 29,8%. Em relação a julho de 2025, a taxa local avançou de 41,8% para 51,2%, alta de 9,4 pontos percentuais, enquanto o indicador nacional permaneceu praticamente estável.
A dificuldade de regularização também é maior no DF: 20,8% das famílias afirmaram não ter condições de pagar as contas atrasadas no mês seguinte, proporção que representa 219.519 famílias e supera os 12,3% observados na média nacional.
O tempo médio de atraso é de 65 dias nos dois recortes, mas 48,9% das famílias inadimplentes do DF acumulam débitos vencidos há mais de 90 dias, percentual próximo ao nacional.
A combinação entre alta incidência de atraso e longa permanência na inadimplência reforça a necessidade de renegociação e reorganização financeira, com efeitos diretos sobre o consumo corrente e sobre a capacidade de acesso ao crédito.
Queda consecutiva no Setor de Serviços, que é o principal motor da economia do DF
O comportamento das famílias se conecta diretamente ao desempenho recente do setor de serviços, principal componente da economia brasiliense. Cerca de 95% do Produto Interno Bruto (PIB) do Distrito Federal vem deste setor. Dados consolidados do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (Ipe-DF) mostram que a agropecuária responde por cerca de 0,9% e a indústria por 4% da economia local.
A Pesquisa Mensal de Serviços, divulgada ontem (12) pelo IBGE, mostrou que o volume de serviços no Distrito Federal recuou 1,6% em junho na série com ajuste sazonal, registrando a terceira queda consecutiva.
No cenário nacional, o indicador ficou estável. Apesar da perda de ritmo no curto prazo, o DF mantém resultados expressivos no acumulado: alta de 2,2% frente a junho de 2025, crescimento de 9,1% no ano — a segunda maior taxa do país — e avanço de 7,8% nos últimos 12 meses.
A receita nominal de serviços também caiu 1,7% frente ao mês anterior, embora tenha crescido 8,5% na comparação anual.
A análise setorial revela um quadro heterogêneo.
Três dos cinco grupos pesquisados tiveram expansão no volume de serviços: informação e comunicação, com alta de 6,5% e crescimento contínuo desde agosto de 2025; serviços profissionais, administrativos e complementares, que avançaram 5,4% pelo quarto mês consecutivo; e transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio, com variação de 0,6%.
Já serviços prestados às famílias recuaram 5,9%, registrando o segundo mês seguido de queda, e outros serviços caíram 5,5%, acumulando três meses de retração. As atividades turísticas retraíram 4,7% frente ao mês anterior e 12% na comparação anual, indicando perda de dinamismo em segmentos dependentes da circulação de pessoas e do consumo presencial.
Fecomércio-DF: "Três quedas é um sinal de atenção"
Para o presidente do Sistema Fecomércio-DF, José Aparecido Freire, os números revelam um cenário que exige atenção, mas também mostram que a economia brasiliense mantém fundamentos sólidos.
“Precisamos analisar os números para além da variação de um único mês. É claro que três quedas consecutivas no volume de serviços acendem um sinal de atenção, mas o Distrito Federal continua acumulando crescimento de 9,1% no primeiro semestre, a segunda maior taxa do país e muito acima do resultado nacional. Isso mostra a força e a capacidade de reação da nossa economia", afirmou.
O presidente da Fecomércio-DF completa: "Ao mesmo tempo, temos segmentos que exigem atenção, principalmente os serviços prestados às famílias e o turismo. O desafio agora é transformar esse crescimento acumulado em uma retomada mais disseminada entre as atividades, estimulando o consumo, os investimentos e a geração de emprego e renda no Distrito Federal.”
Freire também destacou o desempenho das atividades ligadas à tecnologia e aos serviços especializados.
“O avanço de mais de 22% dos serviços de informação e comunicação no primeiro semestre reforça uma característica importante da economia do Distrito Federal, que é o grande potencial nos setores de tecnologia, inovação e serviços de maior valor agregado. Precisamos aproveitar essa vocação para diversificar ainda mais nossa economia, mas sem perder de vista atividades tradicionais que dependem diretamente do consumo das famílias, do turismo e da circulação de pessoas”, acrescenta.
O conjunto dos dados indica que o Distrito Federal vive uma combinação de fatores: famílias pressionadas pelo avanço do endividamento e pela alta inadimplência, setores de serviços que mostram perda de ritmo no curto prazo e, ao mesmo tempo, segmentos estruturais que sustentam o crescimento acumulado e apontam potencial de expansão.
A convergência desses elementos reforça a necessidade de políticas de renegociação, educação financeira, estímulo ao crédito responsável e ações que ampliem a circulação econômica, especialmente nos segmentos mais sensíveis ao comportamento das famílias.