BRASILIANAS | Pesquisa da UnB detalha traços do sotaque brasiliense e revela padrões da fala de segunda geração
Estudo de Fonética e Fonologia identifica características do sotaque brasiliense e desmonta mito da neutralidade -- Análise avança para fala espontânea e novos fenômenos da voz do brasiliense, investigação de vogais, nasalidade, prosódia e diferenças entre gerações -- O jeito de falar do brasiliense existe, tem forma, tem som e, agora, tem documentação científica.
Por décadas, repetiu-se que Brasília não tinha sotaque. A capital era vista como um território neutro, sem marcas regionais reconhecíveis. Pesquisa conduzida no Laboratório de Fonética e Fonologia da Universidade de Brasília (LAFFON) começa a desmontar essa percepção ao mapear, com base em evidências acústicas, como falam os brasilienses de segunda geração.
O estudo é assinado por Yasmin de Faria Miziara Jreige, Davi Moreira e Amanda Marques, graduandos de Letras e bolsistas de iniciação científica, que analisaram a fala de 30 participantes nascidos no Distrito Federal, filhos de pai e mãe também brasilienses — um recorte raro, considerando a juventude da cidade e sua história marcada por migração intensa.
“Brasília é uma cidade muito jovem, e isso significa que o sotaque daqui também está em formação”, explica Yasmin Jreige. “A segunda geração de brasilienses já mostra padrões próprios, diferentes dos sotaques que os pais trouxeram de outras regiões.”
O trabalho é orientado pelo professor Ronaldo Lima Júnior, pesquisador do LAFFON e especialista em fonética e sociolinguística. Para ele, o estudo ajuda a preencher uma lacuna histórica: “Sempre se falou que Brasília não tem sotaque, mas isso nunca foi verdade. O que faltava era documentação científica que mostrasse como esse sotaque funciona. Agora estamos começando a ver isso com clareza.”
Estudo científico afirma: Brasília tem sotaque
Em cabine acústica, os voluntários realizaram leituras, explicações espontâneas e simulações de entrevista. A partir desses registros, Yasmin segmentou manualmente centenas de ocorrências de /s/ e /r/ em posição de coda, utilizando o software Praat para medir duração, intensidade e possíveis apagamentos.
O resultado mais evidente envolve o som do /s/ no final das palavras. Segundo o relatório, “o /s/ em coda final… tende a se manifestar como um fricativo alveolar surdo”, o tradicional [s] — sem o chiado carioca e sem a palatalização presente em partes do Nordeste.
Para Yasmin, isso diz muito sobre a identidade linguística local: “O brasiliense tende a evitar traços muito marcados. O /s/ final é um exemplo claro: ele não chia, não se palataliza. É um som mais ‘limpo’, mais direto.”
Mas o /r/ também ajuda a desenhar esse sotaque. A pesquisa, acompanhada pela reportagem da UnB Ciência, mostra que o /r/ em posição final de sílaba tende a ser realizado como um som fricativo posterior, uma aspiração leve na garganta — diferente do r-caipira retroflexo de regiões de Goiás, Minas e São Paulo, e do tepe típico de partes de São Paulo.
“O /r/ brasiliense não é retroflexo, não é vibrante, não é tepe. Ele é uma fricção suave, quase uma aspiração. Isso também contribui para essa percepção de ‘neutralidade’ que muita gente associa ao DF”, afirma a pesquisadora.
Outro dado relevante: o /s/ final quase nunca é apagado na fala brasiliense. Em centenas de ocorrências analisadas, Yasmin registrou apenas dois casos de elisão — um índice que contrasta com outras regiões do país, onde o apagamento é mais frequente.
Para ela, o estudo ajuda a desmontar um mito cultural: “Brasília tem sotaque, sim. Ele só não é estereotipado. É um sotaque que nasce do encontro de muitos outros, e que agora começa a se consolidar.”
O professor Ronaldo reforça essa leitura: “O sotaque brasiliense é resultado direto da história da cidade. Ele não imita nenhum outro — ele emerge do contato entre muitos. Isso é o que o torna tão interessante.”
Estudo da UnB avança para novas etapas e deve aprofundar análise da fala espontânea no Distrito Federal
Com a primeira etapa concluída, a próxima fase do Mapeamento Fonético do Sotaque Brasiliense deve aprofundar aspectos da fala que não aparecem com clareza na leitura controlada.
Depois de analisar o /s/ e o /r/ em posição de coda (consoante ou grupo de consoantes que fica no final de uma sílaba, após a vogal), a equipe do LAFFON vai se dedicar à fala espontânea, observando como brasilienses de segunda geração se expressam quando não estão lendo frases preparadas.
É nesse tipo de situação que surgem fenômenos como redução de sílabas, apagamento de vogais, variações de intensidade e mudanças de ritmo — elementos que ajudam a revelar o sotaque real, aquele que se manifesta no dia a dia.
Além disso, o grupo pretende investigar o comportamento das vogais pré-tônicas, que no Distrito Federal tendem a permanecer mais altas, sem o abaixamento comum em regiões do Nordeste.
A nasalidade também deve entrar na pauta, com medições de duração e intensidade para entender se Brasília apresenta um padrão intermediário entre variedades do Sudeste e do Norte.
Outro ponto importante é a palatalização de /t/ e /d/ diante de /i/, fenômeno que pode indicar aproximação com sotaques considerados de prestígio e que deve ser analisado em diferentes regiões administrativas.
Proposta é construir um Atlas Fonético do brasiliense
A prosódia — ritmo, acento frasal e entonação — será examinada com mais cuidado, especialmente na formulação de perguntas e na leitura de textos contínuos. Esses elementos costumam diferenciar sotaques de forma mais sutil e podem revelar marcas próprias do DF.
A pesquisa também deve comparar a fala de brasilienses de segunda e terceira geração, identificando possíveis tendências de estabilização do sotaque ao longo do tempo.
A longo prazo, o objetivo é construir um atlas fonético da capital, documentando variações entre regiões administrativas e consolidando a identidade sonora de Brasília.
O trabalho ainda está em andamento, mas já aponta para uma descrição inédita e detalhada do falar brasiliense, que deve ganhar contornos cada vez mais claros nas próximas etapas.