BRASILIANAS | Ibaneis Rocha desiste do Senado e deixa a vida pública; Decisão redesenha articulações para 2026 no DF

Ex-governador confirma que desistiu da vida pública e que não será candidato a nenhum cargo nas eleições de 2026 -- Decisão irá provocar nova reorganização entre partidos e pré-candidatos -- Investigações sobre BRB e Master atingem núcleo político do ex-governador

Por por William França

O ex-governador Ibaneis Rocha (MDB)

Numa decisão surpreendente — embora calculada politicamente — o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) informou no final da tarde de ontem (8 de julho), que desistiu de disputar uma vaga no Senado nas eleições de 2026 e que deixará a vida pública.

Ibaneis deixou o cargo em março para cumprir o prazo de desincompatibilização previsto pela legislação eleitoral, com o objetivo inicial de concorrer ao Senado. O anúncio de ontem altera consideravelmente o cenário político local e abre espaço para novas articulações entre partidos e pré-candidatos.

Em declarações feitas a diversos veículos de imprensa, o ex-governador disse que “pretende cuidar da vida pessoal” e “que não precisa de mandato para ser feliz”. À TV Globo, Ibaneis declarou: "Fiz a minha parte pela cidade que eu amo e que me deu tudo. Agora é hora de cuidar um pouco da minha vida. Vivi pandemia, cuidei de pessoas e agora preciso cuidar de mim."

"Brasilianas" apurou que Ibaneis está há dez dias em sua fazenda em Corrente, no Piaui, e que tomou a decisão de forma solitária. Não teria comunicado previamente ao seu partido (MDB) e nem a nenhum companheiro.

Lúcio Bernardo Jr/Agência Brasília - Celina e Ibaneis trocam críticas pesadas um ao outro

Ibaneis se disse "magoado" - e traído (politicamente)

A repórter Beatriz Matos, deste "Correio da Manhã", apurou que Ibaneis afirmou ainda: “Estou cansado e magoado”. A mágoa dele se refere à sua companheira de governo no segundo mandato, a agora governadora Celina Leão (PP) - com quem protagonizou um rompimento político público em maio. Desde então, os dois não se falaram mais.

"Brasilianas" apurou ainda que Ibaneis declarou que estava "muito chateado" e que "não merecia" o que tem visto nos últimos 90 dias, desde que deixou o Palácio do Buriti. "Fui traido (politicamente) por muitas pessoas", completou. Não nominou quais.

A um interlocutor, ouvido pela coluna, o ex-governador disse que não precisava da política para viver, mas que sim, "a política é que precisava dele". Em princípio, Ibaneis disse que não volta atrás na sua decisão - que é de caráter pessoal. Em tempo: Ibaneis completa 55 anos nesta sexta-feira (10 de julho).

Nos bastidores, a possibilidade de desistência já era considerada. Avaliações internas indicavam que Ibaneis enfrentaria dificuldades para se eleger ao Senado -- nas pesquisas públicas, ele aparecia sempre em quarto lugar, das duas vagas possíveis --, o que levou o ex-governador a buscar alternativas.

Fator 'Rafael Prudente' é incognita

Ibaneis tentou articular uma candidatura paralela à de Celina, em diálogo com o deputado federal Rafael Prudente (MDB), para montar uma chapa competitiva. A movimentação, porém, esbarrou na baixa viabilidade eleitoral e na dificuldade de consolidar apoios. Nos últmos dias, a pré-campanha vinha perdendo tração, e a desistência passou a ser vista como um desfecho provável.

Ontem, Rafael Prudente foi surpreendido pela decisão de Ibaneis. "Brasilianas" apurou que ele soube pela imprensa da notícia e que ainda não sabe o que terá de fazer. Pretende se reunir nos próximos dias com o diretório do partido no DF para ver os novos rumos - entre eles, se irá manter a sua candidatura ao GDF, como Ibaneis pretendia.

Esta coluna apurou que o ex-governador não pretende se envolver mais numa eventual campanha de Prudente ao Palácio do Buriti. "Aí é uma questão deles (MDB do DF). Não vou participar da convenção, se vou ajudar será de longe", afirmou.

"Brasilianas" também apurou que ontem, antes do anúncio público de Ibaneis, Rafael Prudente esteve reunido com Celina Leão, em caráter reservado. Ainda não se sabe o arranjo resultante deste encontro político -- que pode ser alterado, agora.

Com a decisão de Ibaneis, todo o campo político do Distrito Federal entra em nova fase de reorganização. A disputa por uma das duas vagas ao Senado em 2026 deve ser recalibrada por partidos e pré-candidatos que aguardavam a definição de Ibaneis para avançar em alianças e estratégias.

(Ainda há o fator Michelle Bolsonaro, neste momento também uma incognita... se ela virá ou não para a disputa do Senado. A anunciada desistência dela ajudava Ibaneis - agora, ela pode rever a decisão.)

Com o anúncio, o ex-governador encerra uma trajetória de sete anos na política do DF, iniciada em 2018, quando venceu a disputa ao Palácio do Buriti e foi reeleito em 2022. Antes da carreira política, ganhou projeção como advogado e presidiu a OAB-DF.

 

Reprodução/TV Globo - Ibaneis Rocha esteve a par das negociações do BRB com o Master, afirma o ex-presidente da instituição, Paulo Henrique Costa (preso), indicado por ele

Caso Master amplia desgaste de Ibaneis

As investigações sobre as fraudes bilionárias envolvendo o Banco de Brasília e o Banco Master ampliaram o desgaste político do ex-governador Ibaneis Rocha nos últimos meses. A Polícia Federal apura a negociação de uma operação estimada em R$ 2 bilhões, na qual o dono do Master, Daniel Vorcaro, afirmou ter tratado diretamente com Ibaneis sobre a venda de parte da instituição ao BRB, operação vetada pelo Banco Central.

Mensagens analisadas pela PF mostram o ex-governador relatando desgaste ao então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, indicado por ele para comandar o banco e preso na Operação Compliance Zero.

A CPI do Crime Organizado também investigou contratos do escritório de advocacia de Ibaneis com empresas ligadas ao Master e a atuação de sua chefe de gabinete, Juliana Monici, que integrava o conselho fiscal do BRB.

"Brasilianas" apurou que a PF já pediu duas vezes autorização para realizar busca e apreensão contra Ibaneis, ambas negadas pelo ministro relator do caso no STF, André Mendonça. O caso do BRB (ainda sem desfecho) provocou queda acentuada nas ações do banco e intensificou o isolamento político do ex-governador.