BRASILIANAS | Nova frota de ônibus elétricos está parada por impasse tarifário
Empresa Piracicabana condiciona operação dos elétricos ao reajuste de 5,7% na tarifa técnica e à recomposição de investimentos -- Garagens adaptadas, carregadores e rotas definidas aguardam início da operação, que era prevista para maio
EXCLUSIVO - A nova frota de ônibus elétricos prometida em 2024 pelo ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) e apresentada há quase 40 dias à população do DF pela governadora Celina Leão (PP) como marco da modernização do transporte público está parada nas garagens. Os 90 ônibus estão prontos para circular, mas não operam.
“Brasilianas” apurou que a paralisação não está mais relacionada à infraestrutura de recarga (houve um tempo que esse era o empecilho), mas a um impasse financeiro entre a Viação Piracicabana e o GDF. A empresa (que tem a concessão da Bacia 1, que usará os elétricos) condiciona a circulação dos novos ônibus à revisão pelo GDF da tarifa técnica -- valor que remunera a operação do transporte público.
Hoje, a Piracicabana recebe R$ 8,77 por tarifa técnia, conforme tabela vigente desde 1º de janeiro de 2026. A concessionária quer elevar esse valor para R$ 9,27, um reajuste de R$ 0,50 por passageiro — cerca de 5,7%. Para compreensão do leitor: hoje, o usuário paga R$ 5,50 pela tarifa e a diferença é subsidiada pelo GDF.
Segundo apurou a coluna, o aumento seria necessário para recompor os investimentos realizados na aquisição dos ônibus elétricos e nas adaptações estruturais. Esses gastos são classificados como CAPEX, sigla para capital expenditure, que engloba investimentos de longo prazo, como compra de frota, obras, equipamentos e instalações. Sem essa recomposição, a empresa afirma que não consegue absorver o custo da eletrificação.
O debate ocorre também em meio a dívidas acumuladas no sistema. Desde 2019, o conjunto das operadoras soma cerca de R$ 1,4 bilhão em débitos. No caso da Piracicabana, há um saldo específico de aproximadamente R$ 270 milhões referente ao período de 2023 a 2025.
Segundo apurou "Brasilianas", a empresa condiciona a liberação da frota elétrica não ao pagamento imediato dessa dívida - que poderá ser escalonada --, mas à revisão imediata da sua tarifa técnica. A orientação interna da empresa é manter os veículos parados enquanto o reajuste não for homologado.
Questionada, a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob-DF) informou à coluna que os ônibus elétricos “estão em fase de vistoria, cadastramento e demais procedimentos de regularização dos órgãos competentes”. A pasta afirmou que comunicará o início da operação após a conclusão dos trâmites técnicos, mas não mencionou o debate sobre a tarifa técnica nem o impacto do prazo contratual na amortização dos investimentos.
Solução poderia vir na extensão das atuais concessões
O contrato de concessão do transporte público do DF foi estruturado em blocos de 10 + 10 anos, com início em 2013, após licitação concluída em 2012. Hoje, resta pouco menos de sete anos até o encerramento em 2033 -- prazo considerado curto pelos técnicos para amortizar investimentos pesados em eletrificação de frota e modernização operacional.
Em outros Estados, como Goiás, soluções têm incluído a ampliação do prazo das concessões mediante nova modelagem, autorização legislativa e aval dos órgãos de controle, com base em entendimento do Supremo Tribunal Federal que permite a extensão contratual quando há novos investimentos.
No DF, porém, não há neste momento ambiente político (temos eleições, crise no BRB e ajuste fiscal nas contas públicas) para discutir mudanças dessa natureza, o que empurra para depois a solução para um reajuste imediato da tarifa técnica — e mantém, por enquanto, a frota elétrica fora das ruas.
Estrutura para operar ônibus elétricos está pronta, mas permanece sem uso
A infraestrutura montada para receber os 90 ônibus elétricos do transporte público do Distrito Federal está praticamente concluída e permanece ociosa desde que os veículos começaram a chegar ao país em abril. Em 13 de abril de 2026, a Agência Brasília informou que os coletivos haviam desembarcado no Porto de Vitória (ES) e seriam transferidos gradualmente para Brasília, com previsão de início da operação no mês seguinte. Desde então, garagens, carregadores e rotas planejadas aguardam a entrada dos veículos no sistema.
O planejamento da Secretaria de Transporte e Mobilidade previa que os ônibus elétricos reforçariam o atendimento da área 1 (bacia 1), com capacidade estimada para transportar entre 60 mil e 67 mil passageiros por dia.
As linhas foram desenhadas para conectar viagens vindas das regiões administrativas à Rodoviária do Plano Piloto e ao Terminal da Asa Sul, distribuindo usuários para a Esplanada dos Ministérios, Setor de Autarquias e Tribunais, Universidade de Brasília, Setor Noroeste, vias W3 e L2 (Sul e Norte) e Aeroporto de Brasília. A expectativa era de que a nova frota reduzisse ruído urbano, emissões e tempo de deslocamento em áreas de grande fluxo.
Para viabilizar a operação, foram executadas adaptações estruturais nas garagens da Piracicabana. A unidade do Plano Piloto recebeu área específica para recarga simultânea de quatro veículos. Na garagem da Hípica, próxima ao Zoológico, foi feita a instalação de 18 carregadores de 240 kW e três transformadores de 1.750 kVA, com demanda energética estimada em 4.500 kVA em horário de pico.
A Neoenergia ampliou subestações para atender à nova carga, e o Terminal da Asa Sul deve contar com quatro carregadores adicionais. O projeto inicial de infraestrutura, que incluía os primeiros 12 carregadores de alta potência, exigiu investimentos estimados em R$ 20 milhões.
Os 90 ônibus já chegaram prontos
Os veículos também chegaram prontos para operação. Os ônibus elétricos têm piso baixo, capacidade para 74 passageiros, motor traseiro, suspensão a ar, freios ABS com frenagem auxiliar elétrica, ar-condicionado e monitoramento em tempo real. A identidade visual já veio aplicada de fábrica, com numeração, adesivos e sinalização interna em conformidade com as normas brasileiras. Parte da frota elétrica apresentada pela empresa inclui iniciativas como a “biblioteca a bordo”, com livros disponíveis gratuitamente para os passageiros.
Na prática, toda essa infraestrutura — garagens adaptadas, carregadores instalados, reforço de subestações, linhas planejadas e tecnologia embarcada — permanece sem uso. A operação dos veículos ainda não começou, e o sistema segue em compasso de espera para a modernização anunciada.