BRASILIANAS | Celina rompe com Ibaneis, diz que sucessão não é submissão e afirma que governa com autonomia

Governadora reage a críticas de Ibaneis e do MDB, feitas horas antes -- Em vídeo, Celina afirma que herdou crise no BRB e rombo bilionário no GDF, defende lealdade aos princípios e manda recado a quem está preocupado com a campanha: 'Meu governo é um novo governo'

Por William França

Celina Leão e Ibaneis Rocha no dia 18 de março de 2023, data em que ele retornou ao comando do GDF após afastamento provocado pelas ações do 8 de Janeiro

A governadora Celina Leão (PP) levou para o campo público uma crise política, com "cheiro de ruptura",  que vinha sendo construída nos bastidores nos últimos dias, ao divulgar no final da tarde desta quarta-feira (20.05) um vídeo em que se afasta politicamente do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB).

A gravação, publicada nas redes sociais de Celina, foi uma resposta direta ao vídeo anterior de Ibaneis, no qual horas antes ele dizia ter tido “muitas decepções” com a atual gestão. Ibaneis fez as críticas após almoço com a cúpula do MDB Nacional e Distrital em sua casa.

Celina escolheu um tom firme, mas controlado, para marcar posição: fez questão de lembrar sua trajetória, reforçar que foi leal enquanto vice (ela herdou o GDF quando Ibaneis foi afastado durante 64 dias pelos fatos do 8 de Janeiro de 2023 e o devolveu no dia 23 de março, sem sobressaltos) e, ao mesmo tempo, buscou deixar claro que não aceita tutela sobre o governo que hoje comanda.

Logo no início, ela estabelece o eixo político da fala com uma frase que sintetiza o rompimento: “sucessão nunca será submissão”. A mensagem é simples e direta: assumir o governo após a saída de Ibaneis não significou obedecer automaticamente às orientações do grupo que deixou o poder e o ocupou por sete anos, desde 2019.

Em seguida, Celina resgata sua biografia política, lembrando que “o DF me conhece, porque eu já tive quatro mandatos pelo DF”, numa tentativa de mostrar que não é uma figura improvisada nem dependente de um padrinho político para se legitimar.

A governadora também faz questão de enquadrar o período em que foi vice. Ela afirma: “Fui leal durante todo o tempo em que estive ao lado dele (Ibaneis) como vice-governadora”, reconhece o passado em comum, mas vira a chave ao dizer: “hoje eu não sou mais vice-governadora… eu sou governadora!”.

Essa passagem é central porque marca a transição de papel: de coadjuvante de uma gestão para titular de um governo que ela define como próprio. Ao dizer que governar exige “compromisso com os fatos, mesmo quando eles são difíceis”, Celina sinalizou que está disposta a expor problemas herdados, ainda que isso desagrade antigos aliados.

Na sequência, ela entra no conteúdo concreto das dificuldades ao assumir o Palácio do Buriti, no dia 30 de maio. Celina afirma que herdou “uma grave crise no BRB” e “um rombo bilionário nas contas públicas”. Ao usar o verbo “herdar”, a governadora atribui a origem desses problemas à gestão anterior, sem citar Ibaneis nominalmente nesse trecho, mas deixando implícito o vínculo.

A referência ao Banco de Brasília (BRB) não é casual: o banco se tornou um dos principais focos de desgaste político recente, em razão da tentativa de compra do Banco Master e da crise de liquidez que se seguiu - e ainda não tem desfecho concreto, a dez dias do prazo final estipulado pelo Banco Central.

Instagram - Reprodução da tela do Instagram de Celina Leão, quando ela afirma que "sucessão não é submissão"

"Meu governo é um novo governo"

Ela também procura se apresentar como alguém que toma decisões impopulares em nome da responsabilidade fiscal. Diz que tem trabalhado “dia e noite” para enfrentar os problemas e que, muitas vezes, precisa adotar medidas que “desagradam a muitos”. A mensagem é dirigida tanto ao público em geral quanto a grupos políticos que perderam espaço ou influência na atual gestão.

Ao falar de lealdade, Celina amplia o conceito: “lealdade é não trair os seus princípios, não fugir da verdade e nunca abandonar a população quando ela mais precisa”. Com isso, ela desloca a ideia de lealdade de uma relação pessoal com Ibaneis para um compromisso com valores e com a sociedade.

Em outro trecho importante de sua fala, a governadora afirma: “Meu governo é um novo governo”. Essa frase é o coração político do vídeo. Ela não se coloca como mera continuidade, mas como alguém que pretende imprimir marca própria, com “personalidade, transparência, espírito público, perto das pessoas e cuidando de quem mais precisa”.

Ao reforçar que segue “sem mágoa, sem revanchismo”, Celina tenta evitar a imagem de confronto pessoal e enquadra o rompimento como uma decisão institucional, baseada em divergências de método e de prioridades.

O recado final é dirigido ao ambiente político. Celina diz que “tem muita gente preocupada com a campanha” e contrapõe essa postura à sua própria: “eu estou preocupada em resolver os problemas do Distrito Federal”.

Sem citar nomes, ela sugere que parte da classe política já está focada na disputa eleitoral, enquanto ela se apresenta como alguém concentrada na gestão. O vídeo, no entanto, tem efeito imediato sobre o tabuleiro: transforma um distanciamento gradual em ruptura declarada e reorganiza o eixo da disputa pelo comando político do DF.

Celina conta com o apoio do PL

Celina aposta em concorrer ao GDF com o apoio do PL. A presidente da legenda no DF, Michelle Bolsonaro, já disse que o partido irá compor com ela - apesar de o presidente nacional do PL, Waldemar da Costa Neto, ter preferências por José Roberto Arruda (PSD) ou numa candidatura própria, que seria do agora senador Izalci Lucas.

Com o apoio de Michelle Bolsonaro, a chapa que o PL pretende montar no DF inclui ainda a deputada federal Bia Kicis na disputa pelo Senado. Por este desenho, Ibaneis Rocha não teria espaço. Agora, com a ruptura, não terá mesmo...

Instagram - A cúpula do MDB fala sobre o governo Celina Leão (da esquerda para direita: o presidente da CLDF. Wellington Luiz; o presidente Nacional do MDB, Baleia Rossi; Ibaneis Rocha, ex-governador do DF; e o deputado federal Rafael Prudente

O movimento do MDB e o lugar de Rafael Prudente

MDB reage ao rompimento, reforça que quer estar na chapa majoritária e testa Rafael Prudente para o governo

Vídeo de Ibaneis, falas de Baleia Rossi e Wellington Luiz e impasse sobre a vice mostram que o partido se prepara para disputar o comando do DF em outro arranjo político

Horas antes do vídeo de Celina, Ibaneis Rocha (MDB) havia divulgado uma gravação em que dizia que o grupo teve “muitas decepções” com a atual gestão. A fala foi lida como um primeiro passo para marcar distância e preparar o terreno para uma nova configuração de forças. O rompimento anunciado pela governadora apenas acelerou um processo que o partido já vinha desenhando.

No encontro realizado na casa de Ibaneis, que reuniu o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, o presidente do MDB-DF e da Câmara Legislativa, Wellington Luiz, e o deputado federal Rafael Prudente, o partido deixou claro que não pretende abrir mão do protagonismo.

Baleia Rossi foi direto ao ponto ao afirmar que “não há hipótese de o MDB ficar fora da chapa majoritária”. A frase é importante porque indica que o partido não aceita ser relegado a um papel secundário na composição que disputará o governo local.

Wellington Luiz, por sua vez, reforçou a ideia de continuidade de poder ao dizer que o MDB “precisa manter o tamanho que conquistou nos últimos anos”. A mensagem é dirigida tanto à base do partido quanto aos aliados: o MDB se vê como força central na política do DF e quer preservar esse lugar, mesmo que isso signifique se afastar de uma gestão que, até pouco tempo atrás, era apresentada como continuidade do projeto anterior. O vídeo de Ibaneis, com o registro de “muitas decepções”, funciona como justificativa pública para essa mudança de rota.

Rafael Prudente deve ser a aposta

Dentro desse contexto, o nome de Rafael Prudente ganha relevância. O deputado federal já foi testado em pesquisas qualitativas encomendadas pelo partido, que avaliam sua viabilidade como candidato ao governo.

Prudente reúne algumas características que interessam ao MDB: tem trajetória conhecida na política local, já presidiu a Câmara Legislativa e pode ser apresentado como uma alternativa de renovação dentro do próprio campo emedebista. O rompimento de Celina com Ibaneis abre espaço para que o partido apresente um projeto próprio, sem a necessidade de se vincular à atual gestão.

Outro ponto sensível na estratégia do MDB é a disputa pela vice-governadoria. Ibaneis articulou a filiação de Gustavo Rocha, seu ex-chefe da Casa Civil (e advogado pessoal) ao Republicanos e o apresentou como indicação para compor a chapa com Celina.

A operação, porém, encontra resistência. O presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, declarou que a aliança com a governadora está mantida, mas evitou confirmar Gustavo como vice. Esse silêncio foi interpretado como um recado de que o partido não aceita imposições externas sobre a escolha do nome que ocupará a vaga.

O impasse em torno da vice expôs uma fissura importante: de um lado, o MDB tentando preservar influência na chapa; de outro, o Republicanos sinalizando que quer ter voz própria na definição. Com o rompimento declarado por Celina, a equação fica ainda mais complexa. O MDB passa a ter mais liberdade para construir um caminho independente, enquanto o entorno da governadora precisa recalibrar alianças e avaliar se mantém ou não o desenho original de composição.

Divulgação - O ipê amarelo foi a marca durante 7 anos. Celina trocou pelo ipê roxo

Crise no BRB, rombo de R$ 2,7 bilhões e pressão da Operação Drácon compõem o pano de fundo da ruptura entre os grupos

Problemas herdados, mudanças na equipe, revisão de programas e risco jurídico para a governadora criaram um ambiente de desgaste que antecedeu o rompimento político

O rompimento político entre a governadora Celina Leão (PP) e o grupo do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) não surgiu do nada. Ele é resultado de um acúmulo de crises administrativas, disputas de narrativa e pressões jurídicas que vinham se intensificando desde a transição de comando no Palácio do Buriti, formalizada com a renúncia de Ibaneis no dia 30 de março.

Ao assumir o governo, há exatos 40 dias, Celina passou a expor, de forma gradual, problemas que atribui à gestão anterior, ao mesmo tempo em que buscava imprimir uma marca própria à administração. Esse processo foi gerando ruídos com antigos aliados e, aos poucos, transformou um desconforto silencioso em afastamento aberto.

Um dos pontos centrais desse desgaste é a situação do Banco de Brasília (BRB). O banco, controlado pelo governo do DF, foi alvo de forte turbulência após a tentativa de compra do Banco Master, operação iniciada na gestão de Ibaneis.

A transação, que envolvia valores elevados e riscos relevantes, acabou associada a uma crise de liquidez e a questionamentos sobre a governança da instituição. Ao assumir, Celina promoveu uma mudança profunda na cúpula do BRB, demitindo 12 dirigentes ligados ao comando anterior e sinalizando que adotaria uma nova linha de gestão. No vídeo em que anuncia o rompimento, ela retoma esse tema ao dizer que herdou “uma grave crise no BRB”.

DF tem rombo de R$ 2,7 bi

Outro elemento importante é a situação fiscal do Distrito Federal. O secretário de Economia, Valdivino de Oliveira, apontou um rombo de R$ 2,7 bilhões nas contas públicas, o que exigiu medidas de contenção e revisão de despesas. Ao falar em “rombo bilionário”, Celina reforça a ideia de que recebeu um governo com problemas estruturais e que, por isso, precisou tomar decisões duras.

Essa narrativa, embora funcione como justificativa para ajustes e cortes, também é percebida pelo grupo de Ibaneis como uma forma de atribuir responsabilidades à gestão anterior, o que alimenta o conflito político.

No plano simbólico, a governadora também fez movimentos que foram lidos como sinais de descontinuidade. A troca da logomarca oficial — com a substituição do ipê amarelo, associado à gestão de Ibaneis (usada desde 2019) pelo ipê roxo — foi interpretada como um gesto de afirmação de identidade própria. Entre os aliados do ex-governador, a mudança foi interpretada como "desnecessária" e "sinal de vaidade" de Celina.

A revisão do programa Vai de Graça, que garante gratuidade no transporte público aos domingos e feriados, após a saída do secretário Zeno Gonçalves (autor da proposta e secretário de Ibaneis por mais de dois anos) e a chegada de Sandra Maria Santos de Holanda (ligada a Michelle Bolsonaro), reforçou a percepção de que Celina reorganizava prioridades e redes de influência dentro do governo.

As campanhas institucionais também passaram a destacar ações da atual gestão sem dar o mesmo peso ao período anterior, o que foi visto por aliados de Ibaneis como tentativa de reescrever a narrativa recente do DF. Esses movimentos, somados, criaram a sensação de que a governadora se afastava não apenas de pessoas, mas de um projeto político que, inicialmente, era apresentado como continuidade.

Celina ainda está "sub judice"

Além das questões administrativas, há um componente jurídico relevante: a Operação Drácon. A investigação apura um suposto esquema de cobrança de propina ligado à liberação de emendas parlamentares para leitos de UTI, à época em que Celina presidia a Câmara Legislativa.

Embora tenha sido absolvida na esfera criminal, a governadora responde a uma ação de improbidade administrativa na área cível. Em caso de condenação em segunda instância, ela pode ter os direitos políticos suspensos, o que impactaria diretamente sua capacidade de disputar futuras eleições, inclusive a de renovar este mandato à frente do GDF.

A defesa de Celina tentou anular ou enfraquecer o processo questionando a validade dos áudios gravados pela ex-deputada Liliane Roriz, mas o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) manteve as provas. Isso mantém a pressão jurídica sobre a governadora em um momento em que ela também enfrenta disputas políticas intensas.

A combinação de crise no BRB, rombo fiscal, mudanças na estrutura do governo, revisão de programas e risco jurídico criou um ambiente de tensão permanente.

É nesse contexto que o vídeo de rompimento precisa ser lido. Ao afirmar que herdou problemas graves e que seu governo é “um novo governo”, Celina tenta se descolar das responsabilidades da gestão anterior e, ao mesmo tempo, justificar as decisões que vêm desagradando parte da classe política.

Para o grupo de Ibaneis, essa postura representa uma ruptura com o pacto original de continuidade. O resultado é um cenário em que divergências administrativas e jurídicas se transformam em conflito político aberto, com impacto direto na disputa pelo comando do Distrito Federal.

Esquerda comemora a briga

Na opinião de "Brasilianas", esta decisão política de quarta-feira é um jogo de "perde-perde" para Celina e Ibaneis Rocha. Quem por ora está comemorando é a oposição. "Que a direita brigue mais", disse hoje da tribuna da Câmara Legislativa o distrital Chico Vigilante (PT). "Essa briga é altamente positiva para a esquerda do Distrito Federal".