BRASILIANAS | Promessa de Ibaneis: frota elétrica embarca esta semana na China e chega ao DF apenas em maio

Embarcados nesta semana na China, os 90 ônibus elétricos prometidos para o DF só devem chegar a Brasília a partir de maio, em meio a atrasos no cronograma e disputas políticas pela entrega da frota

Por por William França

Ônibus preparados para o embarque, na China

Entrega ficará a cargo de Celina Leão, após saída de Ibaneis Rocha para disputar eleições

Investimento de mais de R$ 300 milhões exige obras de infraestrutura e adaptações na rede elétrica

Frota atenderá 22 linhas do Plano Piloto e poderá transportar 60 mil passageiros por dia

Neoenergia terá de reforçar subestação para evitar apagão durante recarga dos veículos

EXCLUSIVO - Promessa do governador Ibaneis Rocha (MDB) feita em janeiro de 2025, os 90 ônibus elétricos que irão compor o sistema de transporte público do DF só agora começaram a ser embarcados nesta semana, diretamente do porto de Qingdao, na China, e devem desembarcar no Porto de Santos em abril.

O processo de desembaraço aduaneiro pode levar de 30 a 45 dias. Depois disso, cada veículo será transportado individualmente em carretas até Brasília, já que não podem vir rodando. A expectativa é que os primeiros cheguem em maio e estejam aptos a operar a partir de junho. Um ano após o prazo prometido pelo governador.

O secretário de Transporte e Mobilidade, em entrevista exclusiva à "Brasilianas", resumiu o espírito da empreitada: “É um projeto bastante complexo, mas está caminhando bem.” A fala traduz a dimensão dos desafios enfrentados, que vão desde a importação internacional até a adaptação da infraestrutura elétrica local.

O projeto, conduzido pela empresa Piracicabana (uma das cinco grandes operadoras do transporte no DF) em parceria com a fabricante chinesa CRRC, envolve um investimento superior a 300 milhões de reais, com cada ônibus custando em média 3,4 milhões de reais — cinco vezes mais caro que um modelo convencional a diesel. Além da aquisição, há gastos adicionais com infraestrutura de recarga, estimados em mais de 30 milhões de reais.

Divulgação - Um dos novos ônibus elétricos do DF, com o novo layout da frota

Energia suficiente para abastecer 2,5 mil casas por dia

Dois pontos de abastecimento estão previstos: um próximo à garagem da TCB e outro, mais robusto, junto ao Terminal Asa Sul, nas proximidades da Hípica. Esse segundo ponto, que funcionará também como garagem e receberá equipamentos de última geração, já recebeu aprovação da Neoenergia - que por sua vez terá de adaptar sua própria subestação, instalando transformadores especiais para suportar a carga requerida. As obras devem começar em breve.

O desafio energético é central. Um ônibus elétrico urbano consome, em média, entre 1,2 e 1,5 kWh por quilômetro rodado. Considerando uma operação diária de 200 km por veículo, cada ônibus demandaria cerca de 240 a 300 kWh por dia. Multiplicando pelos 90 veículos, o consumo diário pode ultrapassar 27 mil kWh — equivalente ao consumo de aproximadamente 2.500 residências médias em Brasília. Se todos fossem carregados simultaneamente, haveria risco de sobrecarga capaz de provocar apagão no Plano Piloto. Por isso, a recarga deverá ser escalonada e cuidadosamente planejada.

Do ponto de vista operacional, os novos veículos atenderão 22 linhas, preferencialmente aquelas que servem o Plano Piloto. A escolha reforça o caráter simbólico da iniciativa: levar inovação e sustentabilidade ao coração da capital. Estima-se que a frota possa transportar cerca de 60 mil passageiros por dia, oferecendo viagens mais silenciosas, confortáveis e ambientalmente responsáveis.

Promessa de Ibaneis, entrega para Celina

Mas o projeto não é apenas técnico: ele carrega forte simbolismo político. A entrega dos ônibus foi uma promessa de Ibaneis Rocha, feita um ano atrás. Inicialmente, ele havia prometido a chegada do primeiro veículo para testes em novembro do ano passado. Depois, adiou para janeiro deste ano.

Agora, o novo cronograma prevê que os ônibus só cheguem ao DF em maio. Como Ibaneis terá de se desincompatibilizar do cargo até o início de abril para concorrer às eleições, não será ele quem fará a entrega. Caberá à vice-governadora Celina Leão (PP), que assumirá o GDF, conduzir a cerimônia e capitalizar politicamente o evento.

Essa mudança de protagonismo adiciona uma camada política ao projeto. A chegada da frota elétrica, além de ser um marco tecnológico e ambiental, se tornará também um ato simbólico de gestão e continuidade administrativa. Celina Leão terá a oportunidade de apresentar-se como responsável pela concretização de uma promessa que, embora feita por Ibaneis, só se materializará em sua gestão.

Divulgação - Os ônibus custam em média 3,4 milhões de reais cada