BRASILIANAS | Crise venezuelana repercute em Brasília e expõe disputas políticas na capital

Embaixada da Venezuela mantém rotina, Itamaraty monitora tensões e manifestações polarizadas ocupam as ruas após prisão de Nicolás Maduro pelos EUA

Por William França

Manifestantes de partidos de esquerda protestaram

Embaixada da Venezuela mantém rotina, Itamaraty monitora tensões e manifestações polarizadas ocupam as ruas após prisão de Nicolás Maduro pelos EUA

A crise política desencadeada pela prisão de Nicolás Maduro em uma operação militar dos Estados Unidos repercutiu de forma imediata em Brasília, onde diferentes atores se movimentaram para reagir ao episódio. Na Embaixada da Venezuela, porém, o dia começou com sinais de normalidade.

O embaixador Manuel Vadell manteve a agenda e adotou postura discreta, reforçando, em nota oficial, que a representação diplomática segue funcionando normalmente, apesar da instabilidade em Caracas. O comunicado classificou a ação norteamericana como “perversa” e baseada em “pretextos falsos”.

A tranquilidade aparente contrastou com o clima no Palácio do Itamaraty. Desde as primeiras horas da manhã, diplomatas se reuniram em avaliações de risco e monitoramento contínuo da situação. A orientação interna era evitar declarações precipitadas e preservar a tradição brasileira de buscar moderação em crises regionais. O governo acompanhava com atenção os desdobramentos e o impacto que a captura de Maduro poderia gerar no continente.

Entre os venezuelanos que vivem no Distrito Federal, as reações foram diversas. Parte da comunidade expressou alívio e esperança diante da prisão do líder chavista. O empresário Ricardo Seijas, que deixou o país após sofrer perseguição política, relatou “alegria e emoção” ao saber da operação, sentimento que, embora não unânime, ilustra a divisão existente entre os expatriados.

Partidos de esquerda protestam

No início da tarde de sábado, o cenário mudou do silêncio diplomático para a mobilização política. Movimentos sociais e partidos de esquerda organizaram um ato em frente à Embaixada da Venezuela para protestar contra a ofensiva militar dos Estados Unidos. Com bandeiras da Venezuela, do Brasil e da Palestina, além de faixas com críticas ao governo norteamericano, manifestantes pediram a libertação de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, e defenderam a soberania venezuelana.

O embaixador Vadell participou do protesto e elevou o tom ao afirmar que a captura de Maduro representa “um precedente muito grave” para a região. O ato reuniu representantes de PT, PCdoB, PSTU, PCO e PCBR, além de entidades estudantis como UJS, UJC e o DCE da Universidade de Brasília. O grupo se concentrou diante do busto de Simón Bolívar, onde discursos denunciaram o que chamaram de intervenção imperialista.

Assim, Brasília se tornou um microcosmo da crise: dentro da embaixada, a tentativa de preservar a rotina; no Itamaraty, a tensão de quem calcula cada gesto; e nas ruas, a disputa aberta por narrativas que refletem a polarização política do país. A capital federal, mais uma vez, assumiu o papel de observatório privilegiado de um conflito que ultrapassa fronteiras e reacende debates sobre soberania, democracia e influência externa na América Latina.